28.1.08

A propósito

O sérgio faz-me lembrar que gosto de estar apaixonada por quem estou. Que a vida é bonita. E que os amores são o olhar cúmplice no brinde da noite.

A vida que tudo arrasta, arrasta os amores também. Uns dão à costa, exaustos, outros vão mais além, navegadores só solitários dois a dois, heróis sem nome e até por isso heróis.
Os amores são facas de dois gumes têm de um lado a paixão, doutro os ciúmes. São desencantos que vivem encantados como velas que ardem por dois lados.

Aos amores!


(desordeiros irresistíveis deleituosos entranhantes verdadeiros evitáveis buliçosos como dantes bicolores transgressores impostores cantadores)

Depois da dor, como conservar a inocência? Leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência e parta o vidro em caso de necessidade. Deixe o seu coração ir em liberdade.

Brindemos aos amores!

(adaptação livre de Aos Amores - Sérgio Godinho)

19.1.08

Inocência

Pra que mentir
se tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?
Pra quê?! Pra que mentir
Se não há necessidade de me trair?
Pra que mentir, se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?
Pra que mentir se eu sei que gostas de outro
Que te diz que não te quer?
Pra que mentir

Tanto assim
Se tu sabes que eu já sei
Que tu não gostas de mim?!
Se tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero

Ou por teu amor fingido?!

Texto: Noel Rosa
Foto: aqui

Às vezes olho por cima do ombro ou escuto uma conversa entrelinhas (ou ligo a tv) e pergunto-me com que pedra e com que cal se constróiem as relações nos dias de hoje.

16.1.08

(Il est) un soir d'éte

O Jacques Brel chegou. E é tal qual uma noite de verão no meu janeiro.

12.1.08

Beauvoir e Sartre


O que seria dos grandes pensadores, poetas e artistas do século XX se vivessem, como nós, num tempo em que não se pode fumar onde se quer?
Penso que a tão conhecida metonímia "cigarro pensativo" seria pobremente substituída por um café pensativo ou até, para os mais saudáveizinhos, por um néctar de manga laranja pensativo.
Alguém já pensou no bem que o esfumaçar cigarros faz à mente humana? Que enegreçam os pulmões, p'lo bem do intelecto!

9.1.08

Pequenos Castigos


Tenho saudades de ir ver um espectáculo de dança. O último que vi, há demasiado tempo, foi da Olga Roriz. Comovi-me. Espantei-me. Deslumbrei-me. Primeira fila, claro, a seguir todos os pormenores dos bailarinos, a ouvir-lhes a respiração, a ver-lhes o suor, a sentir-lhes a rush de estar num palco. Cheguei a sentir até inveja, não do que faziam, mas do que sentiam naquele momento. Tenho saudades. Quando puder, hei-de voltar a vê-los.

Às vezes apercebo-me, com surpresa, de alguns pequenos castigos que aplico a mim própria, inconscientemente. Como por exemplo, esquecer-me do que gosto realmente de fazer. Ou não fazer nada pelos meus sonhos, senão sonhá-los.

6.1.08

Desalinho

Há pessoas que sabem o que querem. Olham para o futuro e vêem um desenho nítido, a cores, com definição digital e som surround. Olham para o presente e têm o asfalto debaixo dos pés, uma estrada sóbria, com as linhas bem definidas, com contraste. Está identificada com um número e por isso perfeitamente individualizada em relação a todas as outras existentes. Ao longo do caminho existem placas acabadas de pintar com hierarquia de importância e instruções precisas: vai por aqui, não vás por ali, abandona isso, agarra aquilo, diz que sim, diz que não e por cima destas sempre uma a indicar em letras garrafais a direcção da Felicidade.
Essas pessoas estão perfeitamente incluídas (ou absorvidas pela) na sociedade: vestem-se como é suposto vestirem-se, dizem o que é suposto dizerem e pensam o que é suposto pensarem. Têm por princípio pensar em e nunca pensar sobre. Pensam em trabalho, na família, nos amigos, na namorada, em sexo, em férias, mas não se conhece nenhum caso de sucesso em que a fronteira tenha sido ultrapassada. O pensar sobre é um crime social porque está perigosamente ligado à mão no queixo, ao raciocínio, ao perceber a ligação entre os acontecimentos, questioná-los. Não se questiona nada quando se está no caminho para a Felicidade: casa e carro a prestações, marido, filhos e um PPR que é só vantagens.

Eu sou uma pessoa que não sabe o que quer. Portanto nada do que disse atrás se aplica à minha realidade. Olho para o futuro e vejo nevoeiro denso, opaco mesmo. Olho para o presente e há poeira num trilho de areia em que há pedra, silva, vala, montanha, vento e tempestade. Tenho a roupa colada a suor e pó ao corpo e os ténis sujos e rasgados.
Nunca vi uma placa. Às vezes tentei, como os antigos, decifrar augúrios divinos no vôo das aves ou nas tripas de um animal atropelado, mas nada de revelador.
As minhas incursões na sociedade têem sido feitas pela porta das traseiras, às escondidas e sem ter bem a certeza se era ali que queria estar. Mas como me vesti do avesso, não consegui permanecer muito tempo sem ser descoberta e expulsa.
Muitas das decisões que tomei na vida foram às cegas e sem saber o que me esperava do outro lado da porta. Às vezes era apenas uma porta pintada na parede, mas eu mesmo assim corria para ela. Tinha esperança até ao último minuto que ela se fizesse porta e se abrisse para mim. Só porque sim. Só pela esperança … Essa, surpreendentemente, nunca desentranhou.

eu não quero estar parado. fico velho. vou marchar até ao fim. isolado. nesta marcha solitária. dou o corpo ao avançar. neste campo aberto ao céu.
ninguém sabe para onde eu vou. ninguém manda em quem eu sou. sem cor nem deus nem fado. eu estou desalinhado.

29.12.07

candy not "candide"

A rapariga com um protector de orelhas esperava o metro com os livros debaixo do braço. Tinha aquele ar fresco e irritantemente sadio de uma adolescente. Bonita, demasiado bonita. Revelava uma preocupação exagerada com a indumentária. Notava-se na particularidade dos acessórios, na vaidade que transparecia e na procura de olhares cobiçosos. Nestas situações pergunto-me quem é a vítima e quem é o predador: se a inocente adolescente se o solitário cinquentão. O quadro é quase identicamente absurdo a uma suculenta zebra a passear-se despreocupada entre leões esfomeados. A única coisa que impede os leões esfomeados de saltarem para cima da zebra é mesmo só a filha da puta da racionalidade. De que alguns abdicam e depois são presos. Antes vestissem uns trapinhos menos chamativos à zebra, já que a racionalidade já não é o que era.

PS: post assumidamente escrito em estado de ressaca do filme Hard Candy (2005). Não gostei assim por aí além, ou seja, não gostei muito, mas faz pensar numa polémica ou duas.

2.12.07

Assim por estes lados...


em silêncio. em casa. em reflexão.
às vezes faz falta, outras não há alternativa.

9.11.07

Lost woman song - Ani Difranco

i opened a bank account
when i was nine years old
i closed it when i was eighteen
i gave them every penny that i'd saved
and they gave my blood
and my urine
a number

now i'm sitting in this waiting room
playing with the toy
sand i am here to exercise
my freedom of choice
i passed their hand
held signs
went through their picket lines
they gathered when they saw me coming
they shouted when they saw me cross
i said why don't you go home
just leave me alone
i'm just another woman lost
you are like fish in the water
who don't know that they are wet
as far as i can tell
the world isn't perfect yet
his bored eyes were obscene
on his denim thighs a magazine
i wish he'd never come here with me
in fact i wish he'd never come near me
i wish his shoulder
wasn't touching mine

i am growing older
waiting in this linesome of life's best lessons
are learned at the worst times
under the fierce fluorescent
she offered her hand for me to hold
she offered stability and calm
and i was crushing her palm
through the pinch pull wincing
my smile unconvincing
on that sterile battlefield that sees
only casualties
never heroes
my heart hit absolute zero...

17.10.07

I declare that the Beatles are mutants...

...prototypes of evolutionary agents sent by God with a mysterious power to create a new species _ a young race of laughing freemen.*

Declaro-me oficialmente parte da Beatlemania. Hoje, 40 anos depois do grande boom desta banda. Parece incrível, a destempo, despropositado até, não fossem estes 4 meninos os maiores génios da música do século XX. Com este pressuposto não será de estranhar que alguém algures no século XXIII chegue à mesma conclusão. Talvez seja demais este superlativo absoluto, talvez não seja. Opiniões há muitas. Aliás, como outras coisas, cada um tem a sua. Mas, digam-me, assim de repente, lembram-se de alguém que tenha feito mais (pela) música em tão pouco tempo?

(Obrigada a quem me despertou para este fenómeno. Sei que não sou uma discípula muito aplicada, mas, a meu ritmo, lá vou tirando as minhas conclusões.)

*Timothy Leary

ERRATA pós-post : Há que corrigir que o chamado boom dos Beatles foi em 1963, logo, há 44 anos e não há 40 como disse acima (isto depois de ser advertida e devidamente açoitada pelo meu mentor).

15.10.07

The Same Deep Water As You

kiss me goodbye pushing out before i sleep
can't you see i try swimming the same deep
water as you is hard "the shallow drowned lose
less than we" you breathe the strangest twist
upon your lips "and we shall be together..."

"kiss me goodbye bow your head and join with
me" and face pushed deep reflections meet
the strangest twist upon your lips and
dissapear the ripples clear and laughing break
against your feet and laughing break the mirror
sweet "so we shall be together..."

"kiss me goodbye" pushing out before i sleep
it's lower now and slower now the strangest
twist upon your lips but i don't see and i don't
feel but tightly hold up silently my hands
before my fading eyes and in my eyes your
smile the very last thing before i go...

i will kiss you i will kiss you i will kiss you
forever on nights like this i will kiss you i will
kiss you and we shall be together...

The Cure - Disintegration

12.10.07

Fios

Como é que as pessoas se ligam umas às outras? Amigos, amantes, família, há toda uma rede de ligações mais ou menos perigosas, mais ou menos intensas que acabam por tecer uma teia densa e quase indelével à nossa volta. Enquanto estamos distraídos a olhar para dentro nem notamos que um autêntico casulo se formou à nossa volta e todas as outras pessoas (aquelas que importam) estão do lado de fora.

Penso: a maior parte das pessoas vive assim a vida toda: com um emaranhado de fios à frente. Ligações antigas, ligações novas, ligações de sempre, todas se cruzam indiscriminadamente e já não sabemos qual o fio que devemos preservar com mais carinho, qual aquele que devemos romper o quanto antes. São todos iguais. E a vista para fora do casulo torna-se cada vez mais turva. Que fazer quando a emergência de salvar um dos fios surge? Como encontrar o fio que está tão frágil que precisa de ser reforçado, cuidado, acarinhado? Qual deles é? E a fonte não é nítida... Queremos olhar para fora do casulo, reconhecer o olhar que sabemos estar do outro lado, mas esta cegueira é a mais incapacitante de todas. O que resta?

Romper com todos os fios! Há que buscar forças e com uma implusão de revolta destruir este casulo com demasiados fios. Estalar todos eles de um só respiro. E depois? Reconstruir. Remendá-los. Um a um, aqueles que realmente te pertencem. Mas desta vez olhar e pegar em cada fio cuidadosamente e dar-lhe um lugar. Hão-de resistir. Hão-de até ficar mais fortes.

7.10.07

Putas

Os leitores são umas putas, amam-nos e depois deixam-nos. A. Lobo Antunes

Não será antes (ou pelo menos também) ao contrário? Não serão os autores as senhoras meretrizes que por detrás de uma montra, a cada romance, tentam agradar ao máximo de clientes possível de uma só vez? É claro que existem as mais elitistas, essas ou sobrevivem à conta de uma clientela fiel ou acabam a lavar escadas, piscando o olho ao desprevenido que passa, prometendo-lhe delírios se quiser descer até à arrecadação.

5.10.07

Joni



(porque a voz dela é límpida e inigualável. porque me faz lembrar momentos bons. porque há uma pessoa no mundo que entende.)

3.10.07

corpse

If I touch a burning candle
I can feel no pain
If you cut me with a knife
It's still the same
And I know her heart is beating
And I know that I am dead
Yet the pain here that I feel
Try and tell me it's not real
And it seems I still have
A tear to shed...

30.9.07

o meu caminho

O caminho para casa pode ser sempre o mesmo. Aliás, é sempre o mesmo. As mesmas ruas, os mesmos prédios, os mesmos cafés, até os mesmos rostos. Tudo já se afundou numa rotina tão profunda que arrancar daí seria uma tarefa de carne e sangue. Não quero arrancar nada. Quero e preciso da rotina. É no caminho para casa que a minha vida se endireita, que os fios se realinham no lugar próprio, que a poeira pousa. À medida que a estrada desaparece debaixo do meu carro, as horas passadas do meu dia diluem-se no asfalto e dão lugar a novos tempos. Horas por gastar. Por viver.

Se por acaso um dia optasse por um caminho diferente a novidade distrair-me-ía desta tão querida introspecção e realinhamento interior e o meu amanhã nasceria em caos.

Mas os imprevistos acontecem e hoje o meu caminho para casa estava cortado. Tinha de optar por outro. Decisão difícil. Não. Decisão impossível. Não quero optar por outro. Quero ir por aqui. Este é o meu caminho. Mas, minha senhora, a estrada está cortada, não pode. Tenho de poder. Tenho de ir por aqui, não percebe? Não vai ser possível. Como não? Posso ao menos ir a pé? Sim, penso que sim, mas...

Só espero que o carro esteja no mesmo sítio amanhã e que as minhas pernas não me doam insuportavelmente.

20.9.07

| note to self |

Enquanto os acontecimentos esperados constituem os nossos alicerces confiáveis, os inesperados são aqueles que mudam intrinsecamente a vida de qualquer um.

Incrível como passamos quase uma vida inteira a tentar construir algo, tijolo com tijolo, cimento e lágrima e de repente há um bombardeio inesperado que deita tudo por terra. Na estupefacção do momento tentamos recolher os destroços, apanhar as pedras, juntá-las, reconstrui-las no nada que agora nos rodeia. Não é possível. Tudo caiu por terra. A vulnerabilidade novamente.

O extraordinário é que em vez de lamentar a construção perdida, floresce um sorriso e dizemos abençoada bomba: não tinha reparado que a minha muralha tapava o mais lindo pôr do sol do mundo.

14.9.07

O tempo do Chico (II)



(aqui uma mulher de carne suor e lágrimas, de outro tempo, do tempo do Chico)

11.9.07

O tempo do Chico (I)

Gosto do Chico Buarque. Gosto de tudo nele. Da multiplicidade criativa, da voz mal colocada, dos olhos azuis, do ar de malandro, do ar tímido que ainda consegue ostentar, apesar dos 40 anos de palco, da simplicidade que brota de tudo o que faz, apesar de ser um génio reconhecido na cultura brasileira.

Surpreendentemente, até da misoginia que emana de muitas das suas letras eu gosto. Já me julguei e confrontei em prolongados solilóquios sobre esta aparente contradição entre o meu gosto e a minha personalidade que, não sendo feminista, é com certeza anti-misógina. No entanto, chego sempre a uma conclusão: nas palavras/voz do Chico, parece-me bem. Contraditório? Claro que sim. De todos os ângulos, mas tenho de admitir que é esta a verdade. Ouvir o Chico cantar aquelas músicas, normalmente na primeira pessoa de uma voz feminina a maldizer um qualquer malandro que é o amor da vida dela, deixa-me rendida. E ele sabe disso. Não do meu caso particular, como é óbvio (e uma pena, posso já agora acrescentar), mas do estado em que deixa todas as mulheres que ouvem aquilo. E é por isso que ele enjeita aquele sorriso meio tímido, meio malandro, meio qualquer coisa, todo chico quando canta: E ao lhe ver assim cansado/ maltrapilho e maltratado/ainda quis me aborrecer?/qual o quê!/ Logo vou esquentar seu prato/ dou um beijo em seu retrato/ e abro meus braços p'ra você. E pronto, com isto há suspiros juvenis de mulheres feitas por esse mundo fora, porque há um homem com uns olhos azuis incomparáveis, que escreve letras como se fosse uma mulher sobre maridos cafagestes que não sabem sossegar a passarinha e depois vêm para casa, ó querida, eu explico! e a querida desfaz-se porque ele não explica nada mas faz amor com ela até de manhã.

Mas, caros cavalheiros, desenganem-se! Não pensem que esta é uma fórmula simples de executar e de sucesso garantido. Muito pelo contrário. Eu, apesar de confessa vítima deste embuste de sotaque carioca, consigo ainda discernir que o segredo está no executante e não no acto em si. Ou seja, é o Chico que tem o tal je ne sais quoi (bolas, não me saía um lugar comum tão balofo há tempo), já que a estratégia é a mais velha do mundo. Onde é que andaste até esta hora? (mão na anca, colher de pau na outra, rolos na cabeça, avental... as esposas já não são assim nos anos 2000, pois não??) Humm... sabem que mais!? Reformulo tudo!

As mulheres já não são assim, os homens já não são como os das músicas do Chico. Na verdade, será mais correcto pensar que nos nossos dias as mulheres estão-se nas tintas para onde os maridos andaram porque tiveram a trabalhar o dia todo e só querem chegar a casa, tomar duche e relaxar. Os maridos também não estão para inventar desculpas e na maior parte das vezes estão demasiado cansados para chegar a casa e tomar a mulher de paixão assolapada e fazer amor até de manhã, até porque amanhã é dia de trabalho. Pois. É isso. Chico? Estás fora do teu tempo. As pessoas já não são apaixonadas umas pelas outras. Agora há coisas mais importantes. Há o trabalho. Há a internet. Há o telemóvel. A PS2, 3, PSP e isso tudo. Há, porque não?, os cães para passear, há os filhos para ir buscar ao infantário e o quality time com eles (1h, 1h30) até adormecerem e depois há a televisão. Felizmente há também as artes, a literatura, a música, há os álbuns do Chico para viajarmos ao passado. Aquele tempo louco em que as pessoas se amavam, odiavam, desejavam, traíam, voltavam e beijavam-se no fim. Deve ser por isso que gosto tanto deste malandro de olho azul e sorriso bonito.

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus, juro que não acreditei
Eu te estranhei, me debrucei
Sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei, e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Prá mostrar que 'inda sou tua
Até provar que 'inda sou tua

8.9.07

Lentes

As cores das coisas são sempre iguais. Ponho os óculos escuros, baixo-os e o mundo muda de tom, mas a cor é sempre a mesma. Não há grande surpresa. O azul torna-se azul escuro. O rosa torna-se rosa escuro.
Antigamente tinha uns óculos verdes. E antes disso tive uns azuis. Andava mais bem disposta nessa altura. O mundo era diferente. As cores misturavam-se. Um verdadeiro desafio à ordem natural das coisas.
Agora que decidi comprar uns óculos escuros, sem uma cor bem definida, ando desiludida com a previsibilidade cromática do mundo à minha volta.
Penso: como é que se pode aplicar este raciocínio às minhas relações interpessoais? Há sempre uma forma. Sempre me tentaram fazer engolir que a nossa forma de ver o mundo espelha de algum modo as nossas relações. É um tanto óbvio, não? Não é bem a descoberta de uma teora da relatividade... A forma como vemos o mundo está directamente ligada com a forma como nos relacionamos com as outras pessoas. Sim. Faz sentido. Até porque as outras pessoas fazem parte do mundo, não?
Ok, entrei na espiral. Estou tramada. Sempre que tento puxar de um raciocínio mais nonsense escorrega-me o calcanhar para esta espiral verborreica e era capaz de ficar aqui a noite toda a dizer nada.
Voltando ao início do texto, e para dar a ilusão de que esta divagação tem um mínimo de congruência, decido que a minha próxima aquisição vai ser uns óculos com uma lente de cada cor. Vou radicalizar a coisa. Se me der na gana, talvez arranje uns daqueles de cartão que se usavam nos anos oitenta para ver filmes a 3D (como o Monstro da Lagoa, o único de que tenho memória). E aí sim quero ver como isso se reflecte nas minhas relações interpessoais. My guess? Acho que vou de repente ficar sozinha. Ou então, se me distraio na estação do metro ainda me mandam uma moedinha para os pés_ coitadinha, pensam num nanosegundo, para depois me esquecerem para sempre. É isso mesmo. Sempre me fascinou a possibilidade de ser vista como louca sem o ser realmente (?!). Talvez seja mesmo isso: não só a minha visão do mundo é alterada pelos meus óculos de sol, como também a forma como o mundo me vê. Que conclusão brilhante.
Tenho de deitar estes fora, a minha vida vai mudar.