18.2.08

Chuva


Gosto de adormecer com o barulho da chuva a bater na janela. Gosto de acordar e ficar na cama a ver as gotas serpentear nos vidros. Gosto do nó no estômago feito do medo infantil que ainda tenho dos trovões. Gosto de calçar as botas, vestir a gabardina e sair à rua com o vento a atirar-me a chuva com força. Gosto de pisar as poças que os outros evitam. Gosto de chegar a casa encharcada, despir a roupa molhada e esquecer-me de tudo debaixo do duche quente. Sou uma criatura do inverno. Sou mais eu quando chove.

14.2.08

Porque o Dylan diz muito mais que esse tal de Valentim



...Now, little boy lost, he takes himself so seriously
He brags of his misery, he likes to live dangerously
And when bringing her name up
He speaks of a farewell kiss to me
He's sure got a lotta gall to be so useless and all
Muttering small talk at the wall while I'm in the hall
How can I explain?
Oh, it's so hard to get on
And these visions of Johanna, they kept me up past the dawn...

7.2.08

castigo dos deuses

A memória é o maior castigo da humanidade. Se nos lembramos de bons momentos a saudade entranha e faz perguntas que mais parecem percevejos, se nos lembramos de momentos maus sobe à garganta a angústia sentida nesses tempos e fica mais um dia estragado como um iogurte fora de prazo.
Se eu não estava bem melhor só com o meu presentezinho, sempre fresco, sempre acabado de viver e sem pó ou teias de aranha a atrapalhar-me os movimentos.

Quer-me parecer que assim provavelmente seria um peixe, sempre perdida algures num oceano inteiro para descobrir porque sem memória suficiente para saber onde já tinha estado. Dory?

31.1.08

Hoje à noite vamos estar juntos...



22h, no Cine-teatro Joaquim d'Almeida, Montijo

30.1.08

nostalgia da infância


Acolhida por um sentimento no mínimo nostálgico, dei por mim a rebuscar o youtube por episódios da ana dos cabelos ruivos. Lembro-me dessa altura como quem se lembra de bolos quentes a sair do forno e de banhos longos com gargalhadas infantis e a casa de banho cheia de poças de água e espuma. Hoje sou eu que acelero os banhos, porque já estão a demorar muito tempo. Sou eu que limpo as poças e resmungo entredentes. Naquela altura achava a minha mãe uma chata por fazer isso. Não quero ser chata. Será tarde demais para não querer ser adulta?


Alguém um dia me disse que quando ouve falar de nostalgia de infância leva imediatamente a mão à carteira. Hoje é um desses dias. Não confiem em mim, que eu estou com a cabeça enfiada no baú das recordações.

28.1.08

A propósito

O sérgio faz-me lembrar que gosto de estar apaixonada por quem estou. Que a vida é bonita. E que os amores são o olhar cúmplice no brinde da noite.

A vida que tudo arrasta, arrasta os amores também. Uns dão à costa, exaustos, outros vão mais além, navegadores só solitários dois a dois, heróis sem nome e até por isso heróis.
Os amores são facas de dois gumes têm de um lado a paixão, doutro os ciúmes. São desencantos que vivem encantados como velas que ardem por dois lados.

Aos amores!


(desordeiros irresistíveis deleituosos entranhantes verdadeiros evitáveis buliçosos como dantes bicolores transgressores impostores cantadores)

Depois da dor, como conservar a inocência? Leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência e parta o vidro em caso de necessidade. Deixe o seu coração ir em liberdade.

Brindemos aos amores!

(adaptação livre de Aos Amores - Sérgio Godinho)

19.1.08

Inocência

Pra que mentir
se tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?
Pra quê?! Pra que mentir
Se não há necessidade de me trair?
Pra que mentir, se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?
Pra que mentir se eu sei que gostas de outro
Que te diz que não te quer?
Pra que mentir

Tanto assim
Se tu sabes que eu já sei
Que tu não gostas de mim?!
Se tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero

Ou por teu amor fingido?!

Texto: Noel Rosa
Foto: aqui

Às vezes olho por cima do ombro ou escuto uma conversa entrelinhas (ou ligo a tv) e pergunto-me com que pedra e com que cal se constróiem as relações nos dias de hoje.

16.1.08

(Il est) un soir d'éte

O Jacques Brel chegou. E é tal qual uma noite de verão no meu janeiro.

12.1.08

Beauvoir e Sartre


O que seria dos grandes pensadores, poetas e artistas do século XX se vivessem, como nós, num tempo em que não se pode fumar onde se quer?
Penso que a tão conhecida metonímia "cigarro pensativo" seria pobremente substituída por um café pensativo ou até, para os mais saudáveizinhos, por um néctar de manga laranja pensativo.
Alguém já pensou no bem que o esfumaçar cigarros faz à mente humana? Que enegreçam os pulmões, p'lo bem do intelecto!

9.1.08

Pequenos Castigos


Tenho saudades de ir ver um espectáculo de dança. O último que vi, há demasiado tempo, foi da Olga Roriz. Comovi-me. Espantei-me. Deslumbrei-me. Primeira fila, claro, a seguir todos os pormenores dos bailarinos, a ouvir-lhes a respiração, a ver-lhes o suor, a sentir-lhes a rush de estar num palco. Cheguei a sentir até inveja, não do que faziam, mas do que sentiam naquele momento. Tenho saudades. Quando puder, hei-de voltar a vê-los.

Às vezes apercebo-me, com surpresa, de alguns pequenos castigos que aplico a mim própria, inconscientemente. Como por exemplo, esquecer-me do que gosto realmente de fazer. Ou não fazer nada pelos meus sonhos, senão sonhá-los.

6.1.08

Desalinho

Há pessoas que sabem o que querem. Olham para o futuro e vêem um desenho nítido, a cores, com definição digital e som surround. Olham para o presente e têm o asfalto debaixo dos pés, uma estrada sóbria, com as linhas bem definidas, com contraste. Está identificada com um número e por isso perfeitamente individualizada em relação a todas as outras existentes. Ao longo do caminho existem placas acabadas de pintar com hierarquia de importância e instruções precisas: vai por aqui, não vás por ali, abandona isso, agarra aquilo, diz que sim, diz que não e por cima destas sempre uma a indicar em letras garrafais a direcção da Felicidade.
Essas pessoas estão perfeitamente incluídas (ou absorvidas pela) na sociedade: vestem-se como é suposto vestirem-se, dizem o que é suposto dizerem e pensam o que é suposto pensarem. Têm por princípio pensar em e nunca pensar sobre. Pensam em trabalho, na família, nos amigos, na namorada, em sexo, em férias, mas não se conhece nenhum caso de sucesso em que a fronteira tenha sido ultrapassada. O pensar sobre é um crime social porque está perigosamente ligado à mão no queixo, ao raciocínio, ao perceber a ligação entre os acontecimentos, questioná-los. Não se questiona nada quando se está no caminho para a Felicidade: casa e carro a prestações, marido, filhos e um PPR que é só vantagens.

Eu sou uma pessoa que não sabe o que quer. Portanto nada do que disse atrás se aplica à minha realidade. Olho para o futuro e vejo nevoeiro denso, opaco mesmo. Olho para o presente e há poeira num trilho de areia em que há pedra, silva, vala, montanha, vento e tempestade. Tenho a roupa colada a suor e pó ao corpo e os ténis sujos e rasgados.
Nunca vi uma placa. Às vezes tentei, como os antigos, decifrar augúrios divinos no vôo das aves ou nas tripas de um animal atropelado, mas nada de revelador.
As minhas incursões na sociedade têem sido feitas pela porta das traseiras, às escondidas e sem ter bem a certeza se era ali que queria estar. Mas como me vesti do avesso, não consegui permanecer muito tempo sem ser descoberta e expulsa.
Muitas das decisões que tomei na vida foram às cegas e sem saber o que me esperava do outro lado da porta. Às vezes era apenas uma porta pintada na parede, mas eu mesmo assim corria para ela. Tinha esperança até ao último minuto que ela se fizesse porta e se abrisse para mim. Só porque sim. Só pela esperança … Essa, surpreendentemente, nunca desentranhou.

eu não quero estar parado. fico velho. vou marchar até ao fim. isolado. nesta marcha solitária. dou o corpo ao avançar. neste campo aberto ao céu.
ninguém sabe para onde eu vou. ninguém manda em quem eu sou. sem cor nem deus nem fado. eu estou desalinhado.

29.12.07

candy not "candide"

A rapariga com um protector de orelhas esperava o metro com os livros debaixo do braço. Tinha aquele ar fresco e irritantemente sadio de uma adolescente. Bonita, demasiado bonita. Revelava uma preocupação exagerada com a indumentária. Notava-se na particularidade dos acessórios, na vaidade que transparecia e na procura de olhares cobiçosos. Nestas situações pergunto-me quem é a vítima e quem é o predador: se a inocente adolescente se o solitário cinquentão. O quadro é quase identicamente absurdo a uma suculenta zebra a passear-se despreocupada entre leões esfomeados. A única coisa que impede os leões esfomeados de saltarem para cima da zebra é mesmo só a filha da puta da racionalidade. De que alguns abdicam e depois são presos. Antes vestissem uns trapinhos menos chamativos à zebra, já que a racionalidade já não é o que era.

PS: post assumidamente escrito em estado de ressaca do filme Hard Candy (2005). Não gostei assim por aí além, ou seja, não gostei muito, mas faz pensar numa polémica ou duas.

2.12.07

Assim por estes lados...


em silêncio. em casa. em reflexão.
às vezes faz falta, outras não há alternativa.

9.11.07

Lost woman song - Ani Difranco

i opened a bank account
when i was nine years old
i closed it when i was eighteen
i gave them every penny that i'd saved
and they gave my blood
and my urine
a number

now i'm sitting in this waiting room
playing with the toy
sand i am here to exercise
my freedom of choice
i passed their hand
held signs
went through their picket lines
they gathered when they saw me coming
they shouted when they saw me cross
i said why don't you go home
just leave me alone
i'm just another woman lost
you are like fish in the water
who don't know that they are wet
as far as i can tell
the world isn't perfect yet
his bored eyes were obscene
on his denim thighs a magazine
i wish he'd never come here with me
in fact i wish he'd never come near me
i wish his shoulder
wasn't touching mine

i am growing older
waiting in this linesome of life's best lessons
are learned at the worst times
under the fierce fluorescent
she offered her hand for me to hold
she offered stability and calm
and i was crushing her palm
through the pinch pull wincing
my smile unconvincing
on that sterile battlefield that sees
only casualties
never heroes
my heart hit absolute zero...

17.10.07

I declare that the Beatles are mutants...

...prototypes of evolutionary agents sent by God with a mysterious power to create a new species _ a young race of laughing freemen.*

Declaro-me oficialmente parte da Beatlemania. Hoje, 40 anos depois do grande boom desta banda. Parece incrível, a destempo, despropositado até, não fossem estes 4 meninos os maiores génios da música do século XX. Com este pressuposto não será de estranhar que alguém algures no século XXIII chegue à mesma conclusão. Talvez seja demais este superlativo absoluto, talvez não seja. Opiniões há muitas. Aliás, como outras coisas, cada um tem a sua. Mas, digam-me, assim de repente, lembram-se de alguém que tenha feito mais (pela) música em tão pouco tempo?

(Obrigada a quem me despertou para este fenómeno. Sei que não sou uma discípula muito aplicada, mas, a meu ritmo, lá vou tirando as minhas conclusões.)

*Timothy Leary

ERRATA pós-post : Há que corrigir que o chamado boom dos Beatles foi em 1963, logo, há 44 anos e não há 40 como disse acima (isto depois de ser advertida e devidamente açoitada pelo meu mentor).

15.10.07

The Same Deep Water As You

kiss me goodbye pushing out before i sleep
can't you see i try swimming the same deep
water as you is hard "the shallow drowned lose
less than we" you breathe the strangest twist
upon your lips "and we shall be together..."

"kiss me goodbye bow your head and join with
me" and face pushed deep reflections meet
the strangest twist upon your lips and
dissapear the ripples clear and laughing break
against your feet and laughing break the mirror
sweet "so we shall be together..."

"kiss me goodbye" pushing out before i sleep
it's lower now and slower now the strangest
twist upon your lips but i don't see and i don't
feel but tightly hold up silently my hands
before my fading eyes and in my eyes your
smile the very last thing before i go...

i will kiss you i will kiss you i will kiss you
forever on nights like this i will kiss you i will
kiss you and we shall be together...

The Cure - Disintegration

12.10.07

Fios

Como é que as pessoas se ligam umas às outras? Amigos, amantes, família, há toda uma rede de ligações mais ou menos perigosas, mais ou menos intensas que acabam por tecer uma teia densa e quase indelével à nossa volta. Enquanto estamos distraídos a olhar para dentro nem notamos que um autêntico casulo se formou à nossa volta e todas as outras pessoas (aquelas que importam) estão do lado de fora.

Penso: a maior parte das pessoas vive assim a vida toda: com um emaranhado de fios à frente. Ligações antigas, ligações novas, ligações de sempre, todas se cruzam indiscriminadamente e já não sabemos qual o fio que devemos preservar com mais carinho, qual aquele que devemos romper o quanto antes. São todos iguais. E a vista para fora do casulo torna-se cada vez mais turva. Que fazer quando a emergência de salvar um dos fios surge? Como encontrar o fio que está tão frágil que precisa de ser reforçado, cuidado, acarinhado? Qual deles é? E a fonte não é nítida... Queremos olhar para fora do casulo, reconhecer o olhar que sabemos estar do outro lado, mas esta cegueira é a mais incapacitante de todas. O que resta?

Romper com todos os fios! Há que buscar forças e com uma implusão de revolta destruir este casulo com demasiados fios. Estalar todos eles de um só respiro. E depois? Reconstruir. Remendá-los. Um a um, aqueles que realmente te pertencem. Mas desta vez olhar e pegar em cada fio cuidadosamente e dar-lhe um lugar. Hão-de resistir. Hão-de até ficar mais fortes.

7.10.07

Putas

Os leitores são umas putas, amam-nos e depois deixam-nos. A. Lobo Antunes

Não será antes (ou pelo menos também) ao contrário? Não serão os autores as senhoras meretrizes que por detrás de uma montra, a cada romance, tentam agradar ao máximo de clientes possível de uma só vez? É claro que existem as mais elitistas, essas ou sobrevivem à conta de uma clientela fiel ou acabam a lavar escadas, piscando o olho ao desprevenido que passa, prometendo-lhe delírios se quiser descer até à arrecadação.

5.10.07

Joni



(porque a voz dela é límpida e inigualável. porque me faz lembrar momentos bons. porque há uma pessoa no mundo que entende.)

3.10.07

corpse

If I touch a burning candle
I can feel no pain
If you cut me with a knife
It's still the same
And I know her heart is beating
And I know that I am dead
Yet the pain here that I feel
Try and tell me it's not real
And it seems I still have
A tear to shed...