
Entrou em casa a uma hora inesperada, como sempre, sacudiu as gotas de chuva do casaco e tirou-o, cuidadoso. Pousou a mala a tiracolo, retirou lá de dentro o jornal impecável, descalçou-se com alívio e olhou-me articulando um sorriso meio ensaiado meio espontâneo. Sorri de volta, agradada por tê-lo perto. Deu umas voltas pela casa, preparou uma bebida quente, beijou-me e disse boa tarde com carinho. Tomou um duche, trocou de roupa, sentou-se no sofá e perguntou-me o que estava a fazer. Nada, estava à tua espera. Então, com um ajeitar dos óculos, aconchegou-se no sofá, relaxado e começou a dissertar sobre os males do mundo como ninguém.
(Nunca li nenhum livro do Luiz Pacheco, nem mesmo as entrevistas organizadas pelo George, mas tenho-lhe, por outra via, uma familiaridade caseira. daquelas que toleram pijamas foleiros, cabelos despenteados, mau-humor matinal e outros acepipes)