22.8.08

Às vezes chegamos a um ponto de ruptura. Sentimo-nos a quebrar. Sabemos com uma certeza inexplicável que se dermos mais um passo algo de extraordinário vai acontecer. Bom ou mau. Encontro-me nesse preciso fio de arame e nem sei porquê: o dia de hoje foi igual ao de ontem e ao de anteontem. E estou indecisa entre avançar para um possível abismo, montanha ou vazio (sabe-se lá) e voltar para trás.

(não me posso esquecer é que "para trás" também tem os seus abismos e montanhas, já que muitas vezes contornei os problemas em vez de aplainar a paisagem)

Bloqueio.

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continuamos a emissão dentro de um número indefinido de batimentos cardíacos.


20.8.08

O amor ao canto do bar vestido de negro...

...porque outra cor qualquer feriria os olhos e a alma de tão viva.

deixa-o dormir o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais

18.8.08

mitos

Irrita-me que o Heathcliff tenha morrido, porque este foi dos mais geniais vilões (e assim confirmo o meu encanto pelos renegados) que alguma vez vi compostos. Mais e melhor haveria para dar, sem dúvida.
Só espero que não se torne um daqueles fenómenos semelhantes ao River Phoenix que depois de morto foi mitificado por adolescentes e, por isso, esquecido nos meios que realmente importam. A parte mais importante do mito é a desmitificação e o que resta do processo. Não nos iludamos.

11.8.08

os pés no chão

Foto: Ana Franco
Se a vida fosse fácil, não gastaríamos tanto tempo a construir castelos no ar, a polir-lhe as arcadas, a compor-lhe os vitrais. No entanto, estou com estas palavras sobretudo a intimar-me a viver a vida com os pés assentes no chão, com as mãos a mexer na terra, a sentir-lhe a concretude. A esquecer as nefelibatas muralhas do-que-poderia-ser e a pôr os olhos e a acção no que invevitavelmente se agarrou aos meus dias. Afinal de contas é o que tenho de verdadeiramente meu e o que gosto de ter. Tudo o que não partilha o chão comigo só me iria roubá-lo assim de susto, quando eu menos esperasse.


(pensei isto assim de chofre quando dei por mim a cogitar sobre o que poderia fazer se... e este se congelou-me os movimentos porque trazia nas costas toda uma fileira de impedimentos. farta disto que só! vou erradicar esta palavra do meu vocabulário. irrevogavelmente)

6.8.08

Soneto da fidelidade

De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes

1.8.08

Amoras

Há muito tempo atrás quando o tempo para mim ainda era tempo por gastar, lembro-me de pensar, enquanto me deliciava a comer amoras em cima da amoreira do Sr. Artur, onde estaria daí a vinte anos. Com uns ignorantes 6 anos achava que a minha vida seria igual à das outras pessoas todas e que estaria casada e com filhos, como era o mais precioso objectivo das mulheres da minha aldeia. Na verdade, acho que nunca me sonhei muito independente, ou uma mulher de carreira com costumes solitários. Será por isso que não o sou? Estará, no mofo dos desejos que formulei com 6 anos para a minha vida adulta, a verdadeira razão para a ordem dos acontecimentos?
...
Foda-se.

29.7.08

Babel

Quando é que a língua é uma barreira? Quando, por exemplo, imploramos: "ajuda-me" e a outra pessoa, com um sorriso terno e compreensivo, começa a contar-nos a sua própria vida.

Falas a mesma língua que eu?
Ouves-me? Daí, de dentro do teu umbigo?

23.7.08

Sonhar com Anton

Quando vi o último filme dos irmãos Coen, No Country for old men, a personagem Anton Chigurh povou-me os sonhos logo nessa noite. Nem aquele corte de cabelo completamente improvável desmancha-lhe a frieza, ao contrário, acentua-a. Os olhos grandes e raiados, a voz funda, a inteligência a pingar de cada palavra e a resvalar para a loucura compõem uma obra prima. Conheço o Javier Bardem há alguns anos, conhecia-lhe um talento assinalável, mas a sua interpretação neste filme é algo no mínimo perturbador. Na altura da estreia do filme ouvi um dos irmãos Coen (não os sei distinguir) a dizer que a ideia para a construção de Anton era a encarnação da morte, um elemento contrastante com o oeste americano, algo que se notasse fora do seu elemento. Pode-se dizer, como se costuma dizer dos jogadores de futebol, que o Javier cumpriu na perfeição. Mais não lhe poderíamos pedir. Menos talvez pedisse para evitar terrores nocturnos. Há muito tempo que não tinha pesadelos, muito menos por causa de personagens de filmes. Esta capacidade para mim bate qualquer prémio da academia.

(vale a pena clicar na imagem, aumentar e olhar-lhe nos olhos)

17.7.08

100.º post

(convidei a marilyn e alguma angústia para o serão. foi divinal)

14.7.08

Sei de alguém que sabe isto de cor(ação).
Sei de alguém que sente o blues a ressoar nos nervos.
Sei de alguém que sabe o que diz.
Sei de alguém que sabe mas diz que nada sabe.

Muddy Waters & James Cotton - Got my mojo workin' (1966)

Sei de ti. Aqui. Sempre.

8.7.08

how to become an atomic bomb.

9h-18h. segunda a sexta. metro. autocarro. atrasado. trabalho. pc. e-mail. ansiedade. stress. intervalo. cigarro. cadeira. secretária. almoço. junkfood. cansaço. cadeira. vozes. telefone. telefone. ruído. cadeira. secretária. pc. intervalo. cigarro. cigarro. cadeira. telefone. secretária. pc. vozes. vozes. e-mail. papel. caneta. trabalho. trabalho. grito. explosão!

cigarro... cigarro... cigarro...


...e vim a nadar para casa porque já não aguentava olhar para a cara dos funcionários da Transtejo.


(um dia vamos pôr a bomba. vamos sim. e vamos fazê-lo juntos)

27.6.08

Remorso

(José Gomes Ferreira por Mário Viegas, no tempo em que a poesia ainda se declamava e o público se sentava em silêncio e ouvia. Não sou saudosista, mas há coisas e pessoas que me custam a perda como a morte de alguém querido)

24.6.08

Pagú


No meu primeiro blog, há alguns anos, prestei-lhe homenagem. À minha maneira, fantasiei alguns textos sobre episódios da sua agitada vida. Recriei a sua viagem pelo mundo, sozinha, durante a qual privou com o último imperador chinês (sim, o mesmo do filme); reinventei o seu sofrimento nas 23 vezes em que foi presa (uma delas durante 5 anos); ensaiei os seus projectos e protestos políticos; amei Oswald, amei Geraldo; imaginei-a perdida pelas ruas de Paris, estrangeira, comunista, refugiada e finalmente deportada para o Brasil; arranjei lugar em mim para o cancro que lhe tirou a vida aos 52 anos. Vivi-lhe a vida por algum tempo, senti-me a Patrícia Galvão a atravessar as primeiras décadas do século vinte com uma audácia e inteligência incomparáveis.

Tenho, por algumas mulheres, a atracção e admiração que seria esperável ter apenas por homens. Não se trata de uma confissão, mas antes de uma constatação. E constato isso como quem descobre um talento novo.

19.6.08

Cilício

Há dois pólos de ignorância. Aqueles que são natural e visceralmente ignorantes, sabem que o são e não se preocupam minimamente com isso. E no fundo do poço a crescer com os vermes a surdir do musgo enlameado das paredes há o ignorante que incha o peito e diz que não o é, anuncia-se, au contraire, no outro extremo. Escusado é dizer que prefiro e relaciono-me melhor com os primeiros. Os segundos instilam-me uma vontade de me fazer Gulliver em terra de liliputianos e esmagá-los sem piedade com a sola de um sapato arrogante de verniz preto.

(quanto a mim, podem encontrar-me a meio do poço, como quem sabe que é ignorante mas tenta a todo o custo não o ser, esbracejando furiosamente para se manter à tona juntamente com os iluminados mas apenas a tocar-lhes com as pontas dos dedos nos calcanhares)

Custa-me, como me custaria usar um cilício diariamente, ver o Fernando Pessoa nas bocas do mundo, a babarem citações que tiraram da internet e do Livro das Citações, como se fosse uma puta da Rua Suja pronta para toda a ordem e serviço.

13.6.08

Do outro lado do espelho

...ou todas as mulheres querem ser a Elizabeth Shue.


12.6.08

Dolls

Em 2003 vi este filme de Kitano e pensei, na ingenuidade dos meus 21 anos: o amor existe.

Alguns anos mais tarde, revi a mesma película e concluí: a dor existe.

e existe sempre, apesar de tudo. apesar do amor, apesar da felicidade. resiste a tudo. a dor é a barata persistente que resistirá a uma catástrofe nuclear e repovoará a face do planeta num roçar de antenas.

(o facto de as personagens serem meros títeres é demasiado óbvia e demasiado reincidente neste caderno para ser comentado. no entanto, a dúvida de quem/o que titereia, mantém-se)

9.6.08

A dança da solidão

Em tom de nesta data nada querida, fica aqui a música que deu o mote a este blog. Há um ano atrás.

6.6.08

Gente cá de casa


Entrou em casa a uma hora inesperada, como sempre, sacudiu as gotas de chuva do casaco e tirou-o, cuidadoso. Pousou a mala a tiracolo, retirou lá de dentro o jornal impecável, descalçou-se com alívio e olhou-me articulando um sorriso meio ensaiado meio espontâneo. Sorri de volta, agradada por tê-lo perto. Deu umas voltas pela casa, preparou uma bebida quente, beijou-me e disse boa tarde com carinho. Tomou um duche, trocou de roupa, sentou-se no sofá e perguntou-me o que estava a fazer. Nada, estava à tua espera. Então, com um ajeitar dos óculos, aconchegou-se no sofá, relaxado e começou a dissertar sobre os males do mundo como ninguém.

(Nunca li nenhum livro do Luiz Pacheco, nem mesmo as entrevistas organizadas pelo George, mas tenho-lhe, por outra via, uma familiaridade caseira. daquelas que toleram pijamas foleiros, cabelos despenteados, mau-humor matinal e outros acepipes)

3.6.08

De volta...

Foi então que conheci Teresa, em toda sua intensidade e doçura - pois Teresa também era isso: doçura. Ela parecia bossa-nova. Parecia uma música de Tom Jobim. E por que é que eu também não fui feliz? Bobagem achar que a vida cabe num verso, cabe no bolso, cabe no espaço que sobra entre dois corpos quando nenhum espaço parece separá-los.

in Um Beijo de Columbina de Adriana Lisboa


... ao pó dos livros, ao caos das letras, ao rasto dos versos de Bandeira, à Teresa, ao António, à Marisa, ao parco foco de luz na secretária. De volta a ti, Adriana.

Agora somos só nós e a folha branca.

Comecemos.