30.9.07

o meu caminho

O caminho para casa pode ser sempre o mesmo. Aliás, é sempre o mesmo. As mesmas ruas, os mesmos prédios, os mesmos cafés, até os mesmos rostos. Tudo já se afundou numa rotina tão profunda que arrancar daí seria uma tarefa de carne e sangue. Não quero arrancar nada. Quero e preciso da rotina. É no caminho para casa que a minha vida se endireita, que os fios se realinham no lugar próprio, que a poeira pousa. À medida que a estrada desaparece debaixo do meu carro, as horas passadas do meu dia diluem-se no asfalto e dão lugar a novos tempos. Horas por gastar. Por viver.

Se por acaso um dia optasse por um caminho diferente a novidade distrair-me-ía desta tão querida introspecção e realinhamento interior e o meu amanhã nasceria em caos.

Mas os imprevistos acontecem e hoje o meu caminho para casa estava cortado. Tinha de optar por outro. Decisão difícil. Não. Decisão impossível. Não quero optar por outro. Quero ir por aqui. Este é o meu caminho. Mas, minha senhora, a estrada está cortada, não pode. Tenho de poder. Tenho de ir por aqui, não percebe? Não vai ser possível. Como não? Posso ao menos ir a pé? Sim, penso que sim, mas...

Só espero que o carro esteja no mesmo sítio amanhã e que as minhas pernas não me doam insuportavelmente.

20.9.07

| note to self |

Enquanto os acontecimentos esperados constituem os nossos alicerces confiáveis, os inesperados são aqueles que mudam intrinsecamente a vida de qualquer um.

Incrível como passamos quase uma vida inteira a tentar construir algo, tijolo com tijolo, cimento e lágrima e de repente há um bombardeio inesperado que deita tudo por terra. Na estupefacção do momento tentamos recolher os destroços, apanhar as pedras, juntá-las, reconstrui-las no nada que agora nos rodeia. Não é possível. Tudo caiu por terra. A vulnerabilidade novamente.

O extraordinário é que em vez de lamentar a construção perdida, floresce um sorriso e dizemos abençoada bomba: não tinha reparado que a minha muralha tapava o mais lindo pôr do sol do mundo.

14.9.07

O tempo do Chico (II)



(aqui uma mulher de carne suor e lágrimas, de outro tempo, do tempo do Chico)

11.9.07

O tempo do Chico (I)

Gosto do Chico Buarque. Gosto de tudo nele. Da multiplicidade criativa, da voz mal colocada, dos olhos azuis, do ar de malandro, do ar tímido que ainda consegue ostentar, apesar dos 40 anos de palco, da simplicidade que brota de tudo o que faz, apesar de ser um génio reconhecido na cultura brasileira.

Surpreendentemente, até da misoginia que emana de muitas das suas letras eu gosto. Já me julguei e confrontei em prolongados solilóquios sobre esta aparente contradição entre o meu gosto e a minha personalidade que, não sendo feminista, é com certeza anti-misógina. No entanto, chego sempre a uma conclusão: nas palavras/voz do Chico, parece-me bem. Contraditório? Claro que sim. De todos os ângulos, mas tenho de admitir que é esta a verdade. Ouvir o Chico cantar aquelas músicas, normalmente na primeira pessoa de uma voz feminina a maldizer um qualquer malandro que é o amor da vida dela, deixa-me rendida. E ele sabe disso. Não do meu caso particular, como é óbvio (e uma pena, posso já agora acrescentar), mas do estado em que deixa todas as mulheres que ouvem aquilo. E é por isso que ele enjeita aquele sorriso meio tímido, meio malandro, meio qualquer coisa, todo chico quando canta: E ao lhe ver assim cansado/ maltrapilho e maltratado/ainda quis me aborrecer?/qual o quê!/ Logo vou esquentar seu prato/ dou um beijo em seu retrato/ e abro meus braços p'ra você. E pronto, com isto há suspiros juvenis de mulheres feitas por esse mundo fora, porque há um homem com uns olhos azuis incomparáveis, que escreve letras como se fosse uma mulher sobre maridos cafagestes que não sabem sossegar a passarinha e depois vêm para casa, ó querida, eu explico! e a querida desfaz-se porque ele não explica nada mas faz amor com ela até de manhã.

Mas, caros cavalheiros, desenganem-se! Não pensem que esta é uma fórmula simples de executar e de sucesso garantido. Muito pelo contrário. Eu, apesar de confessa vítima deste embuste de sotaque carioca, consigo ainda discernir que o segredo está no executante e não no acto em si. Ou seja, é o Chico que tem o tal je ne sais quoi (bolas, não me saía um lugar comum tão balofo há tempo), já que a estratégia é a mais velha do mundo. Onde é que andaste até esta hora? (mão na anca, colher de pau na outra, rolos na cabeça, avental... as esposas já não são assim nos anos 2000, pois não??) Humm... sabem que mais!? Reformulo tudo!

As mulheres já não são assim, os homens já não são como os das músicas do Chico. Na verdade, será mais correcto pensar que nos nossos dias as mulheres estão-se nas tintas para onde os maridos andaram porque tiveram a trabalhar o dia todo e só querem chegar a casa, tomar duche e relaxar. Os maridos também não estão para inventar desculpas e na maior parte das vezes estão demasiado cansados para chegar a casa e tomar a mulher de paixão assolapada e fazer amor até de manhã, até porque amanhã é dia de trabalho. Pois. É isso. Chico? Estás fora do teu tempo. As pessoas já não são apaixonadas umas pelas outras. Agora há coisas mais importantes. Há o trabalho. Há a internet. Há o telemóvel. A PS2, 3, PSP e isso tudo. Há, porque não?, os cães para passear, há os filhos para ir buscar ao infantário e o quality time com eles (1h, 1h30) até adormecerem e depois há a televisão. Felizmente há também as artes, a literatura, a música, há os álbuns do Chico para viajarmos ao passado. Aquele tempo louco em que as pessoas se amavam, odiavam, desejavam, traíam, voltavam e beijavam-se no fim. Deve ser por isso que gosto tanto deste malandro de olho azul e sorriso bonito.

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus, juro que não acreditei
Eu te estranhei, me debrucei
Sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei, e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Prá mostrar que 'inda sou tua
Até provar que 'inda sou tua

8.9.07

Lentes

As cores das coisas são sempre iguais. Ponho os óculos escuros, baixo-os e o mundo muda de tom, mas a cor é sempre a mesma. Não há grande surpresa. O azul torna-se azul escuro. O rosa torna-se rosa escuro.
Antigamente tinha uns óculos verdes. E antes disso tive uns azuis. Andava mais bem disposta nessa altura. O mundo era diferente. As cores misturavam-se. Um verdadeiro desafio à ordem natural das coisas.
Agora que decidi comprar uns óculos escuros, sem uma cor bem definida, ando desiludida com a previsibilidade cromática do mundo à minha volta.
Penso: como é que se pode aplicar este raciocínio às minhas relações interpessoais? Há sempre uma forma. Sempre me tentaram fazer engolir que a nossa forma de ver o mundo espelha de algum modo as nossas relações. É um tanto óbvio, não? Não é bem a descoberta de uma teora da relatividade... A forma como vemos o mundo está directamente ligada com a forma como nos relacionamos com as outras pessoas. Sim. Faz sentido. Até porque as outras pessoas fazem parte do mundo, não?
Ok, entrei na espiral. Estou tramada. Sempre que tento puxar de um raciocínio mais nonsense escorrega-me o calcanhar para esta espiral verborreica e era capaz de ficar aqui a noite toda a dizer nada.
Voltando ao início do texto, e para dar a ilusão de que esta divagação tem um mínimo de congruência, decido que a minha próxima aquisição vai ser uns óculos com uma lente de cada cor. Vou radicalizar a coisa. Se me der na gana, talvez arranje uns daqueles de cartão que se usavam nos anos oitenta para ver filmes a 3D (como o Monstro da Lagoa, o único de que tenho memória). E aí sim quero ver como isso se reflecte nas minhas relações interpessoais. My guess? Acho que vou de repente ficar sozinha. Ou então, se me distraio na estação do metro ainda me mandam uma moedinha para os pés_ coitadinha, pensam num nanosegundo, para depois me esquecerem para sempre. É isso mesmo. Sempre me fascinou a possibilidade de ser vista como louca sem o ser realmente (?!). Talvez seja mesmo isso: não só a minha visão do mundo é alterada pelos meus óculos de sol, como também a forma como o mundo me vê. Que conclusão brilhante.
Tenho de deitar estes fora, a minha vida vai mudar.

27.8.07

Termina-se um ciclo. Começa outro.
Assinala-se essa mudança de várias maneiras, mas a mais marcante é operada por forças exteriores no nosso quotidiano. Em última instância, dentro de nós.
Depois da revolução, tudo pousará lentamente e encontrará o seu lugar no mundo.
Felicidade serena, esta.

8.8.07

...porque antony e cocorosie juntaram-se e fizeram uma música perfeita

Antony :
Those, those beautiful boys
Those, those beautiful boys

Cocorosie :
Born illegitimately
To a whore, most likely
He became an orphan
Oh what a lovely orphan he was
Sent to the reformatory
Ten years old, was his first glory
Got caught stealing from a nun
Now his love story had begun
Thirty years he spent wandering
A devil's child with dove wings
He went to prison
In every country he set foot in
Oh how he loved prison
How awfully lovely was prison

Antony :
All those beautiful boys
Pimps and queens and criminal queers
All those beautiful boys
Tattoos of ships and tattoos of tears

Cocorosie :
His greatest love was executed
The pure romance was undisputed
Angelic hoodlums and holy ones
Angelic hoodlums and holy ones

Antony :
All those beautiful boys
Pimps and queens and criminal queers
All those beautiful boys
Tattoos of ships and tattoos of tears

(...)

(só uma sugestão, a letra é fabulosa, mas vale mesmo a pena é ouvir...)

5.8.07

Declara-se total inactividade e ausência de criatividade inerente ao quente mês de agosto. Nem uma ideia pinga desta testa atormentada pela passagem demasiado rápida do tempo. Resta-nos outros blogs, outras conversas, outras andanças. Por aqui nada se faz, nada se pensa, nada de novo... Não há-de ser nada. (a repetição do nada foi espontânea e sintomática). Há-de passar. E pela primeira vez a inércia é faca. Boas férias para quem está, para quem estará, para quem julga que está e para quem gostaria de estar!

25.7.07

É p'ra amanhã, bem podias fazer hoje...

A melhor sensação que alguém poderá ter será, certamente, a de alívio, de dever cumprido. Seja ele um alívio fisiológico, uma tarefa terminada, um amigo reconfortado, desapertar o soutien ao fim do dia ou uma tese de mestrado terminada, não interessa, é o melhor que se pode ter.


A expressão facial é mais ou menos eufórica conforme a situação, mas o sentimento cá dentro é o mesmo: Já está! Não preciso mais de me preocupar com isto! Está resolvido! O que eu gostava de poder dizer isto... Neste momento sinto-me como um alcóolico a sonhar com a cura, dentro de uma loja de bebidas: "Como eu gostava, mas..." e tufa, lá vai mais uma garrafa debaixo do braço, e atiro resignada para "amanhã" essa almejada utopia.


Como o meu fígado não se ressente se eu adiar eternamente uma tarefa, desconfio que não haverá nada mais, além da minha consciência, para me levar a atingir o desejado. Maldita consciência. Nunca confiei muito nela. Dizem que as pessoas mudam (mentira descomunal!), mas nunca ouvi tal coisa acerca das consciências...


Resta-me a religião. Dizem que é para onde nos viramos quando tudo o resto não funciona. Nao faz muito sentido, pois não? Estou cheia de problemas por resolver, não encontro soluções, então vou acreditar piamente em alguma força superior a quem possa entregar as responsabilidades e a minha sorte, pronto. Tenho muitas por onde escolher. Vou investigar e averiguar qual será a mais eficiente no que diz respeito a incitar o crente a trabalhar, abandonar o ócio, rever as prioridades e finalmente tirar pesos dos ombros... humm... assim de repente nada me ocorre. Sugestões aceitam-se.


Entretanto, o Variações é que sabe.

É p'ra amanhã
Bem podias fazer hoje
Porque amanhã sei que voltas a adiar
E tu bem sabes como o tempo foge
Mas nada fazes para o agarrar

Foi mais um dia e tu nada fizeste
Um dia a mais tu pensas que nao faz mal
Vem outro dia e tudo se repete
E vais deixando ficar tudo igual

É p'ra amanha
Bem podias viver hoje
Porque amanhã quem sabe se vais cá estar
Ai tu bem sabes como a vida foge
Mesmo que penses que está p'ra durar

Foi mais um dia e tu nada viveste
Deixas passar os dias sempre iguais
Quando pensares no tempo que perdeste
Então tu queres mas é tarde demais

É p'ra amanhã
Deixa lá não faças hoje
Porque amanhã tudo se há-de arranjar
Ai tu bem sabes que o trabalho foge
Mesmo de quem diz que quer trabalhar

Eu sei que tu andas a procurar
Esse lugar que acerte bem contigo
Do que aparece não consegues gostar
E do que gostas já esta preenchido

21.7.07

Shows start at dusk

Death Proof, Quentin Tarantino, 2007


Vale muito a pena ver. Pelos geniais diálogos tarantinianos. Pelas cenas propositadamente mal cortadas à la série B. Pelas "Girls" sempre tão bem escolhidas e a inflamar o peito de qualquer espectador com o verdadeiro Girl Power (as melhores: Rosario Dawson, Vanessa Ferlito e Zoe Bell, as herself). Por uma das mais fabulosas cenas de 'car crash' que me lembro de ter visto com direito a pernas a saltar e pneus a varrer pessoas (ele vai mesmo aos pormenores). Pelas duas horas que tivemos direito cá na Europa, em contrapartida pela falta da sessão dupla anteriormente prometida com Planet Terror do Rodriguez. Pelo Kurt Russel rebuscado de um quase anonimato, um verdadeiro duro, dos antiguinhos. E claro, pelo Tarantino a entrar discretamente no filme como uma personagem secundaríssima, mas marcante. Muito bom.

16.7.07

Jorge Palma revival

A propósito do lançamento do seu mais recente álbum Vôo nocturno, fui rebuscar aquele Jorge Palma antiguinho, dos anos oitenta, quando as suas letras eram inovadoras e as suas músicas surpreendentes. Quando ainda não havia ninguém que dissesse tão bem em português a alma crua e sempre um pouco nua, com um tom toldado de Johnny Walker. Sempre gostei e ainda gosto muito do Palma, apesar de ainda não ter ouvido o seu novo trabalho, de qualquer forma, temo que sempre ficarei agarrada à imagem já quase cliché do Jorge sozinho no palco, inclinado sobre o piano, com a garrafa de whisky à frente a recitar aquelas métricas impossíveis que se entranharam na memória de qualquer um que se tenha sentado a ouvi-lo.


A gente já não sabe o que há-de fazer com a lua
Gerou-se um curto-circuito no canal telepático
E a caverna clandestina por detrás da cascata
Onde os amantes se entregavam à eternidade
Hoje não passa dum moderno armazém de sucata

Existem mil produtos para encher o vazio
Criámos computadores para ampliar a memória
E todos nós temos disfarces para aumentar a confusão
Só não sabemos como fazer o amor durar
O grande enigma continua a dar-nos cabo do coração

"Olá, a que horas parte o teu comboio?
O meu é às cinco e trinta e três
Ainda falta um bom bocado,
Queres contar-me a tua história?
Espera, deixa-me adivinhar,
Vais recomeçar noutro lado...
Trazes escrito na bagagem
Que a coisa aqui não deu...
Quanto a mim, também me sinto um pouco desenraízado... "

Também o amor se adapta às leis da economia
Investe-se a curto prazo e reduz-se a energia
E quando o barco vai ao fundo ninguém quer ser culpado
Mas nunca é tarde para se ter uma infância feliz
O cavaleiro solitário ainda sonha acordado.

Nunca é tarde para se ter uma infância feliz
O lado errado da noite, 1985.

10.7.07

Danças Interiores

Já me perguntaram mais do que uma vez porque escolhi dar uma nome tão depressivo ao blog. Fico algo espantada. Depressivo? Acham mesmo? Não foi de todo para dar aquele ar de coitadinhismo, vamos lá todos cortar os pulsos, que o mundo é um lugar frio e estamos todos sozinhos. É claro que todos temos os nossos momentos menos animados em que introspectamos sonhos e ideias que sabemos existir só e para sempre cá dentro, mas... por favor! daí a fazer disso um estandarte e ficar com o olhar perdido no horizonte cada vez que passa "aquela música" (categoria que entretanto já inclui umas 300) e não conseguir descolar a mão do queixo nem por força de diluente, isso é um caso diferente!
Há que esclarecer que o nome do meu blog nada tem a ver com estes estereotipos acima descritos. Em primeiro lugar fi-lo para homenagear uma música que eu adoro do Paulinho da Viola (1972) talvez mais conhecida pela interpretação de Marisa Monte, intitulada, precisamente, A Dança da solidão. Em segundo, porque acho um conceito lindo este de dançarmos todos ao som da nossa solidão. No fundo, é isso que fazemos todos os dias, mesmo aqueles que insistem que nunca estão sozinhos, há sempre um momento em que o nosso ritmo interior é diferente do que se passa à nossa volta. Momentos em que não estamos em sintonia com os sons e gestos que os nossos olhos e ouvidos recebem. Estamos todos "virados para dentro", mesmo que seja numa sala cheia de gente com o melhor dos nossos sorrisos estampado nos lábios. E o que é um blog senão a verbalização ou simples comunicação dessas danças interiores? Expômo-nos aqui como num diário, mesmo que nunca falemos de nós próprios. Posso estar a falar do filme que vi ontem na televisão e mesmo assim o leitor vê-me dentro muito mais claramente do que a pessoa que se senta todos os dias ao meu lado no trabalho.

Enfim, são fenómenos, mais ou menos conscientes. Acima de tudo há partilha. Danças isoladas fazem um baile? Claro que sim. Dançamos todos uns para os outros, por muito sós que pensemos estar.

7.7.07

Pedindo emprestada a rubrica Dupla do vizinho QCI, quero aqui sublinhar a genialidade originada pelo encontro entre Rodrigo Leão e Beth Gibbons. Confirmada com o álbum Cinema, de 2004, e relembrada ontem à noite no concerto junto à Torre de Belém, escolhi também aqui fazer uma homenagem a esta união inesperada.


When i have tried to amuse myself
To celebrate the fun fair
The pleasures i seek
Are far too discreet for me

And all the time
The world unwinds
I can't deny the way i feel
The truth is lost beyond this lonely carousel

And all these words
They mean nothing at all
Just a cruel remedy
A strange tragedy
Of what will be

After i tried
To discover the answers to why
To look for a meaning
Inside of this dreaming i had
And words that i've said
Are spinning 'round
Would sing alone inside my head
Nothing will change
It's always the same
Please make it stop
...

3.7.07

Em África não há saldos?

Achei por bem referir aqui que, actualmente, na Guiné Equatorial, o preço da catana baixou.
Graças ao fim das eleições e, portanto, ao regresso à vida normal dos guineenses equatorianos, é possível comprar-se uma boa catana por menos de 3 euros, imagine-se! Ou seja, agora que os nativos preferem usar os referidos facalhões para a agricultura e não para cortar mãozinhas, os preços estão mais competitivos. Saldos, meus amigos! É de aproveitar! (Num país de terceiro mundo perto de si).

Fonte: TSF

30.6.07

Volta Vitinho!

Aproveito esta minha recente aventura na blogosfera para lançar um repto: onde estão os bonequinhos que nos cantavam uma música de embalar a seguir ao telejornal? O ursinho teddy, o vitinho, os patinhos, até a mascote do continente enjeitou qualquer coisa nesse sentido... Todos perdidos. Já não querem pôr os putos a dormir! Juro que, no meu tempo, resultava. Assim que começava a ouvir aquela musiquinha uma sonolência começava a apoderar-se das minhas pálpebras e já via o Boa noite e Até manhã dos papás do Vitinho com um olhito só. Aquilo é que era manipulação televisiva desinteressada! O facto de o inocente menino de chapéu de palha ser a imagem da Milupa, era pura coincidência!... Pronto, sabemos que não era, mas isso agora não interessa nada, eu, por exemplo nunca troquei o meu Nestum de mel pelo Milupa!


Bom, mas isto para dizer que há uns tempos, nem sequer sei se ainda se mantém, vi a Floribella aos pulos e saltos e gritos e flores e tudo, como só ela sabe, a querer fazer qualquer coisa como o Vitinho fez há uns bons 20 anos. Fiquei chocada! E julgo que também o Vitinho (que entretanto deverá ter crescido e agora é o Sô Vítor, contabilista de renome e consta que sofredor crónico de insónias) deverá resmungar umas obscenidades ao testemunhar tal ofensa. Como é que a rapariga quer pôr alguém a dormir? A meu ver, não estão, de modo nenhum, reunidas as condições mínimas. Aquela agitação toda, como se tivesse um vibrador com pilhas duracell entalado algures, aqueles olhos muito abertos e aquele sotaque do Puorto (carago!) mesmo à peixeira do Bulhon, tudo aquilo põe-me nervosa, credo! Só apetece é dar-lhe uma droga qualquer, por favor acalma-te miúda! Ora o que é que a Sic pensou, vamos pôr a Floribella a cantar umas canções para pôr os putos a dormir! Hã?? Os miúdos vão para a cama com aquela informação toda de cores e flores e gritos e fadinhas e bruxinhas e o raio que a parta... Caros amigos, os pobres meninos, no mínimo, adquirem precocemente o síndrome das pernas inquietas.


Caros senhores que mandam na Sic e na Floribella e na programação em geral: há que voltar à receita antiga. Esqueçam a miúda eléctrica! E os super megas hipers rifixes e coisas demais! Nada como um ambiente calmo, uma voz suave a cantarolar uma melodia de embalar, sem grande alarido, sem grandes mensagens, só mesmo tipo tá na hora de ir para a cama, o dia foi longo, 'bora lá. Confesso mesmo, se vale de alguma coisa, que aquele Boa Noite e Até Amanhã sussurrados pelos pais do Vitinho antes de fechar a porta, ainda hoje me acompanham quando o sono não vem logo. Tenho dito.

27.6.07

Dizer tanto em tão pouco

Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e que isso era fácil. Minha experiêcia maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.

Clarice Lispector
A experiência

25.6.07

Mão no queixo: Licenciatura = emprego??!

Afinal o que é preciso fazer para ter um emprego hoje em dia? Por emprego, entenda-se: executar uma função que tenha minimamente a ver com o que andaste a estudar a vida toda, ser justamente pago para isso, ter um contrato que te providencie uma série de regalias que não são mais do que direitos básicos, tipo seguro saúde, férias, segurança na trabalho, etc. Começo a pensar que é uma meta reservada para uma pequena elite escolhida pelos deuses do Olimpo depois de aturada reflexão e demorado sufrágio.

O que acham? Posso dar-vos o meu exemplo pessoal, só para cismarem um pouco sobre o assunto. Até aqui, só porque não quis entrar na carneirada de licenciados em línguas que seguem a carreira de professores de liceu, já trabalhei em três lojas de roupa de senhora (convém salientar o género que atendia, porque as gajas são muito mas muito mais cabras que eles), numa imobiliária, num bar e num escritório (onde desempenhava a desafiante tarefa de introduzir dados num computador). A ordem cronológica não é a apresentada, mas isso também não interessa nada agora.

A par destes eventos, fui seguindo o meu percurso académico, ou seja, terminada a licenciatura, descansei um ano e depois entrei para o mestrado. Teimosa! Um mestrado em Literatura! "Para que é que isso serve?" é a pergunta que oiço mais vezes. Porque a maior parte das pessoas acha que se andámos na faculdade então temos de ser ou médicos ou advogados ou engenheiros ou então professores. Pois. Ainda se aceitam profissões ditas mais "modernas" como jornalista, tradutor ou agente de turismo, mas já se franze o nariz a estas. Quando digo que a maioria das minhas colegas seguiu a carreira de professora e eu optei por não fazê-lo, sou recebida numa hecatombe de espanto: "Não?! Mas porquê? O que é que vais fazer??" Quando digo que gostaria eventualmente de seguir carreira académica respondem-me com um, "ah pois, só se for isso" com um neonizante "Não faço ideia o que isso quer dizer!" escrito na testa. Enfim, já começo a estar habituada.

O pessoal de letras é e sempre foi descriminado, olhado de lado, encarado como os gajos que fugiram à matemática no liceu e pronto. Ainda te podes pôr em pontas dos pés e acenar com uns livritos dizendo que gostas mesmo daquilo, a sério, é mesmo isto que gosto de fazer... Mas não adianta! És arrumado nessa prateleira para sempre, quer caibas, quer não. Por essas e por outras, quando me perguntam que curso tirei, reduzo o extenso e pormenorizado Línguas e Literaturas Modernas, variante em Estudos Portugueses, para um seco: Literatura Portuguesa, ou, para algum público menos exigente, Letras! assim facilito ainda mais o rotulamento e vou direitinha para a prateleira sem mais nem quê.

Assim sendo, concluo amargamente, já praticamente a desfalecer sobre um balcão de um bar qualquer em decadência alcoólica, que: meus queridos amigos, nunca na vida terei um emprego daqueles que descrevi no início. Pelo menos, não por mérito próprio. Já que tenho sempre a alternativa de simplesmente rebaixar-me ao chão que piso e andar ó tio, ó tio, para arranjar um tacho qualquer numa câmara ou noutro organismo estatal qualquer. Mas vamos assumir que tenho como princípio não perder a dignidade. Por enquanto. O desespero um dia pode falar mais alto. Nunca digas desta água não beberei. Pronto, e agora que já salvaguardei qualquer eventual desenvolvimento que a minha vida profissional possa levar, posso despedir-me, com um sorriso no rosto: "Boa tarde e volte sempre!", que foi como me ensinaram a fazer!

22.6.07

Recente descoberta, modesta sugestão


Cómo decir que me parte en mil
las esquinitas de mis huesos,
que han caído los esquemas de mi vida
ahora que todo era perfecto.

Y algo más que eso,
me sorbiste el seso y me decían del peso
de este cuerpecito mío
que se ha convertío en río.
de este cuerpecito mío
que se ha convertío en río...


Bebe, Pafuera Telarañas, 2004
(Exc. de Siempre me quedara)

21.6.07

Reported: missing

Às vezes apetece desaparecer, não é? Saltar um hiato de tempo que nos vai fazer uma dor de cabeça tão grande e criar tantos problemas, que o nosso desejo mais veemente é mesmo evaporarmo-nos como por magia e reaparecer quando tudo estiver mais calmo. Quando tudo estiver resolvido, reaparecemos nós, como se nada tivesse acontecido e ninguém tivesse dado pela nossa falta. Mãos nos bolsos, ar descontraído: "foi uma fase difícil esta, hein?" Sem ter a mínima noção do que realmente se passou, só mesmo para gozar com a cara de quem teve de arcar com as consequências dos nossos actos. Humm. Dito assim, não parece muito correcto, pois não? Não. Deve ser aquela parte da consciência vestida de branco, com asinhas e auréola, como nos livros do tio patinhas que me está a alertar. Sempre preferi o diabinho, mas nunca tem argumentos de jeito.

De qualquer forma, essa fantasia de me evaporar perante os problemas nem sequer é verosímil. Mas encenar um rapto, já era. Humm. Ainda para mais tinha a vantagem de, perante uma situação de crise ainda maior, diminuir consideravelmente a importância de quaisquer outros problemas que existissem. "Epah o gajo fez merda, mas agora pode estar morto, coitado." O crime perfeito. É claro que esta ideia (e a frase anterior, já agora) já tem séculos, é dos clichés mais gastos da história do cinema e da literatura policial, mas não deixa de ser aliciante.

O que uma pessoa faz para fugir aos problemas... E enfrentá-los, não? És um homem ou um rato? Não há nada pelo meio? Não é lá que está a virtude? Um cão? Um cavalo? Um chimpazé... a aproximação genética há-de valer alguma coisa. Help!




When I was younger, so much younger than today
I never needed anybody's help in any way.
But now these days are gone, I'm not so self assured,
Now I find I've changed my mind and opened up the doors.

Help me if you can, I'm feeling down
And I do appreciate you being round.
Help me, get my feet back on the ground,
Won't you please, please help me...

(isto com banda sonora ficava muito mais fixe, mas ainda não domino a blogosfera a esse ponto. Dicas aceitam-se.)

19.6.07

Some of the voices inside my head...


Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios. Rompi com o mundo, queimei meus
just the strange kind of nothing where there used to be me.
navios... Me diz pra onde é que inda posso ir.

No meio do caminho...

Gritos, berros de poesia, espasmos de cores em quadros inesperados, cartolas e fraques em
gestos de desaprovação, uniformes a querer segurar toda esta loucura, que se espalha como areia, numa jaula de barras largas. Quatro nomes: Oswald, Mário, Tarsila e Anita. Era assim que imaginava a Semana de Arte Moderna de 22, tinha 12 anos.

... tinha uma pedra.

Talvez até tenha futuro, não sei, talvez a segunda melhor coisa que se consegue a seguir a um
I hate darkness and sleep and night and lie longing for the day to come.
grande amor é viver na teimosia de o ter perdido.
Here is another day, here is another day, I cry as my feet touch the floor.

Anseio com uma angústia de fome de carne

Eu queria ver a Teresa no fundo da Teresa, no seu mais desvão, mito fortuna, na anatomia do sexo durante o sexo, na pela húmida, tensa, túrgida. Ali eu ainda estava meio tímido, mas depois aprendi a contemplá-la com os dedos, com a língua, toda inteira_ toda inteira mas sempre me faltava alguma Teresa. Sempre, algum recôndito aonde não chegava meu desejo, meu pensamento, meu olhar, minha intenção, minha língua, meu sexo, o que fosse.



...O que não sei que seja.

Desperdiçar aquilo que se tem por um laivo de esperança numa paixão assolapada é o que tenho
Blue, here is a shell for you
feito nos últimos tempos da minha vida. Escusado será dizer que de tanto desperdiçar, já não
Inside you'll hear a sigh
tenho nada. Nada. Insisto nos bolsos, procuro, mas desconfio que estão rotos e tudo foi embora
A foggy lullaby
sem eu sequer ter notado. Onde terei perdido tudo o que tenho? Tinha. Onde estará tudo o que
There is your song from me
eu tive?

Cortaram os trigos. Agora a minha solidão vê-se melhor.

Vou-me sentar aqui, respirar até doer as coisas possíveis nunca reais. Aprender, nó a nó, como
It may be a bruised day, an imperfect day.
te soltas;

Dêem-me Água de Vidago, que eu quero esquecer a Vida!

A labareda. Uma labareda que se desencadeia na cabeça nova arquitectada ao cimo do corpo, que afronta o mundo e o devasta como a vinda de Deus: a maneira demoníaca que Deus tem de arrombar as portas, quando toca com os dedos para se anunciar.
Então KZ abandonou tudo, e desapareceu. Deixou dito: Vou procurar um coelacanto. E nunca mais voltou, nunca mais voltará.