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8.11.10

sine qua non

O passado que ainda palpita deve ser devidamente assassinado.

Apalpar-lhe a carótida, sentir o pulsar e a sua localização exacta e, com o gume afiado da faca, forçar o corte.

27.2.10

Os dias correm mansos quando estão alinhados no tempo pela trança da rotina. De vez em quando há fios que se querem soltar, rebeldes, não querem entrançar com o próximo, mas acabam por dobrar a vontade eriçada e desaparecer no meio da tessitura grossa. Até um dia, por acaso, um fio ser puxado, e toda uma tapeçaria gigantesca e barroca de traço se desfaz num ápice.

Resta-nos os dias loucos que nos sacodem, nos lembram que estamos vivos e enlaçam nós cegos que nunca mais na vida iremos conseguir desfazer. Nem esquecer.

3.1.10

postal de ano novo

quando tens o mundo inteiro a torcer para que seja tudo bom outra vez, seria de esperar que alguma espécie de energia atravessasse os corações e concretizasse, de facto, alguma coisa. Mas isso não acontece, até porque a torcida só dura o tempo do álcool nas veias, a ressaca do dia 1 já escurece as perspectivas e mata os neurónios que festejaram o ano novo na noitada anterior.
as passagens de ano são sempre lugares de angústia para mim. esta começando por não ser, acabou por sê-lo também. invariavelmente. não há como contornar esta evidência: as grandes mudanças operam escavações miocardianas das quais nunca mais se recupera. pior é que a mudança de ano nem sequer é uma grande mudança. é um segundo que passa e um calendário que se rearranja. mas as pessoas que rasgam a folha do ano passado ainda o têm dentro delas e vai continuar, menos se tiver sido bom, mais se tiver sido mau. a grande mudança é um eco que se agiganta do tamanho do mundo e depois não é nada. varre-se com as serpentinas e com as garrafas partidas.
sei que o que quero aqui dizer afunda-se no mais gritante dos lugares comuns, mas tenho a necessidade de dizê-lo. até para me explicar a mim própria, por a+b, que a vida continua serena, sem sobressaltos e que se eu quero ver o mundo do alto de uma montanha, tenho de ser eu a erguê-la... da mesma forma que inevitavelmente escavarei e me afundarei em fossos profundos se me deixar ficar parada no mesmo sítio durante muito tempo.
o ano passado, por esta altura, sentei-o ao meu lado a dizer estas palavras, este ano vou rebuscar umas quantas dele também:

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

(CDA)



Um tempo que passou, Sérgio Godinho & Chico Buarque

11.10.09

nova águia

Há dias ouvi alguém (não interessa quem, não interessa onde) a dizer qualquer coisa como isto: nós não queremos o progresso. o progresso é um movimento metálico e cinzento. nós queremos renascer e isso tem cor e tem vida.

é isto, não é?

24.8.09

Note to self II

Não sou o que vivo. Sou o que escrevo.
E a angústia maior é que não sou escritora.
Assim sendo, aquilo que sou está condenado a ficar, com parcimónia, fechado dentro de mim.

13.8.09

Este meu querido mês de agosto...

Não só mas também para contrariar o marasmo que se pega às coisas em agosto, venho publicar aqui qualquer coisa. Não se pense que são apenas algumas palavras ditas ao acaso, há um propósito para esta intervenção e para esta quebra de regras das férias. Remexendo um pouco as gavetas desta casa, arejando as traças e o caruncho, verifico que muitas vezes vim para aqui, como quem põe a boca no trombone, falar das minhas mágoas (sejam elas fictícias ou reais, na verdade nem eu as distingo), pois bem, chegou o dia de apregoar a minha felicidade: sinto-me feliz.

Pronto. Está apregoada.

Bom, que se lixe. Ninguém pode negar que a depressão é bem mais criativa.

8.7.09

the poet's wife (I/2)

A vida vazia que fazia correr os dias havia parado no segundo em que se lembrou do que tinha deixado para trás. Acontecia-lhe muito: esquecer-se das pessoas que mais amava, como quem esquece o rosto com que se cruzou no elevador.

Ele estaria na estação do comboio, no destino combinado, na hora combinada, ontem, hoje e amanhã. Combinação peculiar para não destoar da peculiaridade do par. Teriam assim três dias para decidir se queriam partilhar a vida ou não. Se escolhiam o amor, ou não.

Escusado será dizer que no primeiro dia nenhum dos dois apareceu. Este era o segundo.

22.6.09

the poet's wife* (I)

**
Ela caminhava ao longo da rua, com passo certo e perdido. Estava certa de que queria caminhar, mas não sabia para onde. Já estava perdida há horas naquela cidade. Decidira sair do comboio numa cidade que não conhecia, a cerca de 100km do sítio onde deveria ter saído segundo o plano inicial. Mas o plano inicial nunca passava disso, facilmente substituído por outro mais atractivo, ou, pelo menos, novo.

A sua pele já contava 35 anos, mas continuava jovem. Quando calçava os ténis, punha uma t-shirt e a mochila às costas ainda a confundiam com uma miúda. Só os olhos a denunciavam. Não eram olhos de miúda. Na verdade, nunca foram. Há olhares que nos contam histórias infinitas num só relance. O dela contava. Havia duas histórias que nos eram segredadas na primeira troca, infalivelmente. Uma sobre a morte e outra sobre a vida. A língua em que recebíamos a mensagem às vezes era estranha, sibilante, leve, mas as emoções chegavam-nos com a intensidade prevista dos choques eléctricos. Porém, os seus olhos não eram só expressão, eram também cor. Uma cor inexistente e pura. Como um invólucro precioso de algo mais precioso ainda.

Parou à frente de uma retrosaria antiga e prendeu-se nos rendilhados de um tecido. Fascinavam-na os artifícios manuais, talhados com o hábito dos dedos rápidos das mulheres. Imaginava-as em grupos, em tardes solarengas de quintais de cal e cimento, como as da sua terra, a conversar a vida dos outros que se entrelaçava nos seus dedos junto com as linhas. Quis comprar aquele tecido e usá-lo à volta da cintura como um acessório que não era. Entrou na loja. Lembrou-se, no entanto, que não tinha dinheiro, que aquele desvio tinha-lhe custado a carteira quando passou por um grupo batedor de pequenos marginais. Subiu-lhe de repente o sangue às faces com aquela lembrança. Estava perdida e sem dinheiro. Tinha apenas alguém à sua espera no destino que não tinha tomado. Estava sozinha. Lembrou-se também de que já lhe tinha acontecido isso mais vezes e que tudo se resolvera, por obra do divino, não por ela, que era demasiado atrapalhada para desvelar soluções. Confiou a vida a mais esse acaso. Olhou em volta, envergonhada, saiu da loja e continuou a caminhar sem saber para onde.

*título roubado a F.A.R., da arca dos pretéritos
** foto de Ana Franco, retirada daqui

15.6.09

até amanhã

As palavras que se dizem entre álcool e fumo ganham asas e fogem. Ficamos com a ideia de que foram, na sua breve existência, geniais, só porque ajuda a alimentar o mito. Sim, o mito. A nossa vida só faz sentido a prestar contas a sucessivos pequenos mitos que vamos alimentando com ar e imaginação. Se não fossem eles, muitas vezes nem sequer nomeados, muitas vezes apenas latentes nalgum canto da nossa memória, tudo seria branco ou preto, nem a coexistência das duas cores seria permitida. As conversas são linhas que se atam e desatam, que experimentam novas combinações, que se enrolam às pernas, que articulam os dedos e os gestos, que puxam o sorriso, que pescam lágrimas, que atam nós na garganta e no estômago. Tudo mitos> mentiras> histórias> lendas> conversas. Deixa tudo de existir (ou apenas voam para longe) quando pousamos o copo e vamos para a cama. Até amanhã (mesmo que longe demais).


(se este fernando cunha não estava tão melhor a fazer isto...)

29.5.09

B&C

A propósito da notícia sobre a abertura ao público do processo Bonnie&Clyde pelo FBI, sinto-me impelida a falar de liberdade. Não condeno nem perdoo esta dupla pelos crimes que cometeu, mas invejo-os pelo que sentiram durante esses dois anos de fuga. Penso que não haverá maior liberdade do que estar sempre na iminência de a perder. Todos nós, os mortais, jamais sentiremos a vida a pulsar nas veias como tambores primordiais; jamais, como eles, seremos baleados até a vida, a dignidade e a beleza (mas não a memória) abandonar o corpo desfeito.

O Mickey e a Mallory são a actualização muito stoniana/ tarentiniana deste mito.
Também os tenho no altar, mas dos loucos.
Estes não.

24.3.09

Vertigem

Viajamos num balão de ar quente. A viagem já começou há tanto tempo e ainda estamos presos à vertigem de olhar para baixo, da proximidade das nuvens. Ainda rodamos à procura de novas perspectivas, mas quase não há alterações em qualquer dos ângulos. Viajamos no balão de ar quente juntos e quase não olhámos um para o outro. Quase não nos apercebemos de que estamos tão próximos e tão sozinhos. Viajamos com a cabeça pendurada para fora quando devíamos olharmo-nos nos olhos e sentir a viagem juntos. Quando começou a viagem? Não sei. Já perdi a referência de tempo e de espaço. O sol vai circulando, a lua também. A paisagem vai mudando. Rios, montanhas, mar, sereias, serras, vales, abismos, monstros, sonhos, campos, estradas que desprezamos por não precisarmos delas. Estamos no ar, a viajar num balão de ar quente e nem reparei se te comoveste quando subimos, voamos juntos e nem reparaste se estou com medo de cair. Quero olhar para ti mas a vertigem atrai-me. Não consigo desviar os olhos incrédulos da distância do chão, da imagem do meu corpo a esmagar-se violentamente contra o solo, do som do teu grito terrível, da sensação dos meus ossos a estilhaçarem-se como vidro. E a viagem continua.


25.2.09

nó cego

Mais uma vez, o turbilhão. Novamente a tempestade. Nada na minha vida corre como esperado. Pelo menos não as grandes mudanças. Nunca consegui planear nada, que as malditas Parcas a meio das fiadas do meu destino enlaçam um nó cego que vira tudo ao contrário. Não tem necessariamente de ser mau. Não é. Na maior parte das vezes a tempestade até me lavou o asfalto e arrancou as daninhas. Estou simplesmente de mãos na cabeça a avaliar os estragos e concluo, quase surpreendida, que normalmente são do meu lado esquerdo.


- Why did you keep a diary all these years?

- To remember the links between events.

16.1.09

Bílis

A contas com este espírito renovador de ano novo chego à questão que muitas vezes me pica os miolos insistentemente: como é que se esquece? Não me refiro ao varrer para debaixo do tapete que eu logo quando tiver mais paciência (ou mais maturidade) lido com isto. Também não é, obviamente, apagar a existência do sucedido, isso seria um caso agudo de amnésia. É antes nunca mais lembrar se ninguém perguntar. E, de tanto não lembrar, quando surge a pergunta, já está num substrato inofensivo. Arrumar dentro da gaveta e fechá-la sem pontas de fora. Como é que se faz isso? Terei propensão para "arrastar cadáveres"? O Miguel Esteves Cardoso escreveu uma crónica sobre como esquecer (amores), mas não me revi na especificidade do assunto, porque eu quero esquecer tudo, quero esquecer o mundo de anteontem com celebrações dionisíacas e não enlutada por fora e com os lábios pintados por dentro.


A psicanálise às vezes devia ser despejada pelo cano abaixo, já que tudo se poderia resolver dentro de um vocabulário muito mais simples: sou rancorosa. por isso não esqueço. a minha bílis segrega quantidades lancinantes de rancor. tenho dificuldade em perdoar e até (para não dizer principalmente) a mim própria.


Nem todos somos Narcisos apaixonados pelo nosso reflexo, às vezes ele reflecte mais do que a pele que nos cobre e somos confontados com a mais pura fealdade sem qualquer pudor. E que fazer com ela? Disfarçá-la? Escondê-la? Não. Primeiro que tudo há que trazê-la à vida, trazê-la connosco à rua e depois, estoicamente, matá-la.


Eis as provas dispersas do meu primeiro crime.

3.1.09

maldita

A maldita melancolia de inverno-dezembro-fim-de-um-ano-início-de-um-novo-dia-chuvoso chegou e aconchegou-se descaradamente ao meu colo. Assim mesmo, sem ser sequer convidada para entrar quanto mais para estas intimidades. Nem mesmo com o meu ar indignado, perturbado até, e sucessivos suspiros impacientes ela se manca. A melancolia é mesmo assim, não se presta à boa educação, quando acha que deve entrar em cena, entra com tudo. Agora resta-me não deixá-la acomodar-se demasiado, ir dando as dicas para ela ir cochilar para outro lado, caso contrário estou feita. Vou recomeçar as minhas lides profissionais a arrastar-me pelos corredores, não quero isso, já basta que me apeteça fazer isso o ano todo, não quero efectivamente fazê-lo. Seria terrivelmente sincero da minha parte. E a sinceridade, como toda a gente sabe, já não se usa. Ite.

9.12.08

Instinto

Depois de explicar a Ilíada e a Odisseia, depois de descrever Aquiles, Heitor, Ulisses, pergunto: percebeste porque é importante?

Resposta: Não.

Depois disto, vou ali à ponte 25 de Abril não para me atirar, mas para atirar ao Tejo em tom sacrificial toda esta geração de inscientes arrogantes que cospe na cultura que lhes corre nas veias como um filho mal educado na cara enternecida da mãe. Arre!

20.11.08

peixe morto

Para quê tudo isto? Quando reduzidos à condição original não somos mais que animais. Para quê explorar o raciocínio se ele nos leva ao abismo? E eu sempre tive vertigens, sempre senti um desejo intestino de saltar e nunca consegui.
Se eu apanhasse uma gaivota e a comesse a cru, com penas bico patas sangue e tudo? Se eu fizesse isso era mais humana por responder aos instintos ou era mais animal? E se eu lhe desse um tiro de uma distância educada e a embalsamasse? ao menos não sujava as mãos. E a única diferença é essa: as mãos limpas de sangue, as unhas asseadas, o obrigado, o com licença, o livro debaixo do braço, a vida arrumadinha dentro da carteira, é isso que me mantém do lado de cá.

Ou do lado de lá?

De que lado estou eu agora que escrevi estas palavras?