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16.6.10

juro!

Ter um filho é como ter todas as nossas fragilidades interiores a passear-se por aí. É como andar de peito aberto, com o coração e pulmões e tudo sem a protecção torácica, assim expostos a todo e qualquer mal que o vento ou a vida traga.


E não é que é mesmo? Não há esterno que sele esta inevitabilidade.

10.2.10

plain song

Sempre me obriguei a ser alguém que não era. quero dizer: nunca soube muito bem quem era, no fundo, daí achar sempre que estava a fingir. Quando me falavam sobre mim soava-me sempre estranho e descabido, não por falta de sensibilidade das outras pessoas, mas porque eu própria não me reconhecia. Não me conheço. Não sei os meus limites. Não prevejo as minhas reacções. Adoro conhecer e falar com pessoas que são 100% seguras de si, absorvo tudo o que posso e às vezes acho que consigo ser assim, mas é tudo camuflagem, postiço. De fora para dentro. Na verdade é isso: sou camaleão: imito o que me rodeia. Se for preciso sou descontraída, desbocada, brejeira; noutra situação serei formal, pudica, diplomática. Não sei qual das duas me é mais natural. Volto a dizer, não me conheço. Quando tentamos viver em paz connosco próprios e com as pessoas que fazem parte das nossas vidas estes solavancos agigantam-se. Colossais monumentos ao que não devíamos ser (e intrinsecamente somos).
O verso do António Variações "são tudo fantasias que o cinema projectou no meu olhar" veste-me à medida. Sendo "o cinema" tudo o que vi(vi) ao longo da vida, as pessoas, as situações, os problemas, os filmes, os romances, os poemas, as palavras que esbarram quando somos rios a querer desaguar... Tenho a sensação de que sou um molde construído de fora para dentro, sem nada de meu cá dentro. deve ser normal. deve ser normal não querer viver isto de vez quando.

3.1.10

postal de ano novo

quando tens o mundo inteiro a torcer para que seja tudo bom outra vez, seria de esperar que alguma espécie de energia atravessasse os corações e concretizasse, de facto, alguma coisa. Mas isso não acontece, até porque a torcida só dura o tempo do álcool nas veias, a ressaca do dia 1 já escurece as perspectivas e mata os neurónios que festejaram o ano novo na noitada anterior.
as passagens de ano são sempre lugares de angústia para mim. esta começando por não ser, acabou por sê-lo também. invariavelmente. não há como contornar esta evidência: as grandes mudanças operam escavações miocardianas das quais nunca mais se recupera. pior é que a mudança de ano nem sequer é uma grande mudança. é um segundo que passa e um calendário que se rearranja. mas as pessoas que rasgam a folha do ano passado ainda o têm dentro delas e vai continuar, menos se tiver sido bom, mais se tiver sido mau. a grande mudança é um eco que se agiganta do tamanho do mundo e depois não é nada. varre-se com as serpentinas e com as garrafas partidas.
sei que o que quero aqui dizer afunda-se no mais gritante dos lugares comuns, mas tenho a necessidade de dizê-lo. até para me explicar a mim própria, por a+b, que a vida continua serena, sem sobressaltos e que se eu quero ver o mundo do alto de uma montanha, tenho de ser eu a erguê-la... da mesma forma que inevitavelmente escavarei e me afundarei em fossos profundos se me deixar ficar parada no mesmo sítio durante muito tempo.
o ano passado, por esta altura, sentei-o ao meu lado a dizer estas palavras, este ano vou rebuscar umas quantas dele também:

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

(CDA)



Um tempo que passou, Sérgio Godinho & Chico Buarque

22.10.09

hoje



Aqui só estão dois, mas acrescenta-se mais um mítico Fausto Bordalo Dias e temos as três grandes lendas vivas da música portuguesa. E hoje cantam para nós. Benditos!

10.9.09

I declare that the beatles are mutants II

Um dia atrasada, mas ainda com a febre alta da nova edição de toda a discografia beatliana remasterizada, aqui fica a homenagem.
Como diz o MEC, e mais uns milhões de pessoas, eles vão viver para sempre.



(ri às garagalhadas quando vi isto a primeira vez. como há muito não fazia)

13.8.09

Este meu querido mês de agosto...

Não só mas também para contrariar o marasmo que se pega às coisas em agosto, venho publicar aqui qualquer coisa. Não se pense que são apenas algumas palavras ditas ao acaso, há um propósito para esta intervenção e para esta quebra de regras das férias. Remexendo um pouco as gavetas desta casa, arejando as traças e o caruncho, verifico que muitas vezes vim para aqui, como quem põe a boca no trombone, falar das minhas mágoas (sejam elas fictícias ou reais, na verdade nem eu as distingo), pois bem, chegou o dia de apregoar a minha felicidade: sinto-me feliz.

Pronto. Está apregoada.

Bom, que se lixe. Ninguém pode negar que a depressão é bem mais criativa.

4.5.09

os vivos


A construção de um indivíduo marca-se e conhece-se por coisas como esta.

Quem conseguir ouvir isto e mais isto, que é a continuação, e não sentir a pele a eriçar, não sentir sua a raiva de gritos ensurdecedores, não sentir as lágrimas a romper, quem não reconhecer este homem como um dos poucos vivos que para aí há a percorrer a terra, está morto.

O José Mário Branco, assim como quase tudo o que conheço hoje de música e dos vivos, veio pela tua mão, que já é minha também, que é nossa. Veio e virá, porque tu és inesgotável e eu só espero conseguir ser sempre insaciável.

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
(...)
Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.

23.4.09

JP

só gosto tanto dele porque ele tem tanto de ti.

6.12.08

Meu

Ah, eu quero te dizer

Que o instante de te ver

Custou tanto penar

Não vou me arrepender

Só vim te convencer

Que eu vim pra não morrer

25.11.08

La frontière de l'aube - Philippe Garrel- 2008

De quando em quando pensa-se o que afinal de contas se anda aqui a fazer debaixo do sol, na maior parte das vezes, saracoteada pelo vento e pela chuva, na menor parte. Quando se levanta o véu da rotina e se olha por baixo para ver o que de facto se passa cá dentro pode ser assustador. Nós, andarilhos durante o dia, trabalho casa, casa trabalho (sendo que o tempo em casa é para descansar do trabalho do dia e temer o trabalho do dia a seguir) ficamos viciados nas funções cerebrais que usamos diariamente e esquecemo-nos das outras. Que outras? Tudo o resto. O cd que se quer ouvir, o filme que se quer ver, a conversa que se quer ter, o abraço que se quer dar, o prato que se quer cozinhar(?), o amor que se quer dar, tudo coisas absolutamente viscerais para nos sentirmos vivos e que são colocadas num quase inconsciente hold indeterminado. Quando damos por nós, não tendo alimentado o coração e o que resta de uma gana meio esquecida, temos um buraco negro em vez destes orgãos vitais. Que fazer então a este sal que não salga? Recentemente vi o último filme de Garrel: La frontière de l'aube e devia ter caído logo em mim como uma revelação, mas não caiu logo, caiu mais tarde. E uma revelação tardia, devo admitir, tem um sabor ainda mais apurado. Havia uma mulher que fazia o que queria, que amava quem queria, que tinha o que queria. Enlouqueceu. Suicidou-se. Havia um homem que amou essa mulher, teve tudo o que quis, mas quando ela enlouqueceu ele não quis e afastou-se. Ela voltou dos mortos e assombrou-o na sua culpa muito viva. Suicidou-se. O que tem isto a ver com o início do meu raciocínio? O seguinte: se eu tivesse a vida que queria o que queria e de repente o homem que eu amasse me abandonasse e eu ficasse a olhar as paredes e a gritar aos meus ouvidos, suicidava-me. Por outro lado, não tendo tudo o que quero, não fazendo quase nada do que quero, mas tendo a pessoa que quero, esqueço-me de viver. Vantagens: lembrei-me agora. Desvantagens: será que ainda vou a tempo?


Este texto confuso e quase imperceptível para os seres que vivem fora da minha cabeça, nem a mim me fez sentido depois de uma segunda leitura, contudo, soube-me bem escrevê-lo, assim com um leve mas assertivo sabor a redenção. e, god knows, eu estava mesmo a precisar de uma.


3.11.08

o passar dos dias range-me nos ossos e flui-me nas veias. sinto o tempo agora mais do que em qualquer outra altura da minha vida. atingi um ponto em que acho que sou adulta. e acho isso com a maior das certezas com que se pode achar. no entanto, hoje o dia é



indiferente.



mais indiferente do que qualquer outro três de novembro desde 1981. naquele tempo festejavam o meu aniversário. não digo que hoje não sou feliz (esse tipo de etiqueta simplesmente não se cola à minha pele), não me revejo num fósforo frio nem no mofo que se entranha no tecto, mas o aniversário pessoano é hoje o meu também, por tudo o resto.