13.8.09

Este meu querido mês de agosto...

Não só mas também para contrariar o marasmo que se pega às coisas em agosto, venho publicar aqui qualquer coisa. Não se pense que são apenas algumas palavras ditas ao acaso, há um propósito para esta intervenção e para esta quebra de regras das férias. Remexendo um pouco as gavetas desta casa, arejando as traças e o caruncho, verifico que muitas vezes vim para aqui, como quem põe a boca no trombone, falar das minhas mágoas (sejam elas fictícias ou reais, na verdade nem eu as distingo), pois bem, chegou o dia de apregoar a minha felicidade: sinto-me feliz.

Pronto. Está apregoada.

Bom, que se lixe. Ninguém pode negar que a depressão é bem mais criativa.

8.7.09

I told you when I came I was a stranger


Let's meet tomorrow if you choose
upon the shore, beneath the bridge
that they are building on some endless river
Then he leaves the platform
for the sleeping car that's warm
You realize, he's only advertising one more shelter
And it comes to you, he never was a stranger
And you say ok the bridge or someplace later.

And then sweeping up the jokers that he left behind ...

And leaning on your window sill ...

I told you when I came I was a stranger.

the poet's wife (I/2)

A vida vazia que fazia correr os dias havia parado no segundo em que se lembrou do que tinha deixado para trás. Acontecia-lhe muito: esquecer-se das pessoas que mais amava, como quem esquece o rosto com que se cruzou no elevador.

Ele estaria na estação do comboio, no destino combinado, na hora combinada, ontem, hoje e amanhã. Combinação peculiar para não destoar da peculiaridade do par. Teriam assim três dias para decidir se queriam partilhar a vida ou não. Se escolhiam o amor, ou não.

Escusado será dizer que no primeiro dia nenhum dos dois apareceu. Este era o segundo.

22.6.09

the poet's wife* (I)

**
Ela caminhava ao longo da rua, com passo certo e perdido. Estava certa de que queria caminhar, mas não sabia para onde. Já estava perdida há horas naquela cidade. Decidira sair do comboio numa cidade que não conhecia, a cerca de 100km do sítio onde deveria ter saído segundo o plano inicial. Mas o plano inicial nunca passava disso, facilmente substituído por outro mais atractivo, ou, pelo menos, novo.

A sua pele já contava 35 anos, mas continuava jovem. Quando calçava os ténis, punha uma t-shirt e a mochila às costas ainda a confundiam com uma miúda. Só os olhos a denunciavam. Não eram olhos de miúda. Na verdade, nunca foram. Há olhares que nos contam histórias infinitas num só relance. O dela contava. Havia duas histórias que nos eram segredadas na primeira troca, infalivelmente. Uma sobre a morte e outra sobre a vida. A língua em que recebíamos a mensagem às vezes era estranha, sibilante, leve, mas as emoções chegavam-nos com a intensidade prevista dos choques eléctricos. Porém, os seus olhos não eram só expressão, eram também cor. Uma cor inexistente e pura. Como um invólucro precioso de algo mais precioso ainda.

Parou à frente de uma retrosaria antiga e prendeu-se nos rendilhados de um tecido. Fascinavam-na os artifícios manuais, talhados com o hábito dos dedos rápidos das mulheres. Imaginava-as em grupos, em tardes solarengas de quintais de cal e cimento, como as da sua terra, a conversar a vida dos outros que se entrelaçava nos seus dedos junto com as linhas. Quis comprar aquele tecido e usá-lo à volta da cintura como um acessório que não era. Entrou na loja. Lembrou-se, no entanto, que não tinha dinheiro, que aquele desvio tinha-lhe custado a carteira quando passou por um grupo batedor de pequenos marginais. Subiu-lhe de repente o sangue às faces com aquela lembrança. Estava perdida e sem dinheiro. Tinha apenas alguém à sua espera no destino que não tinha tomado. Estava sozinha. Lembrou-se também de que já lhe tinha acontecido isso mais vezes e que tudo se resolvera, por obra do divino, não por ela, que era demasiado atrapalhada para desvelar soluções. Confiou a vida a mais esse acaso. Olhou em volta, envergonhada, saiu da loja e continuou a caminhar sem saber para onde.

*título roubado a F.A.R., da arca dos pretéritos
** foto de Ana Franco, retirada daqui

16.6.09

Família

- patti smith & hers by Annie Leibovitz -

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Este é o nosso terceiro Junho juntos em terras blogosféricas, imagine-se.
À nascença não lhe dava(m) mais de 3 meses de vida.
A par do Midsommar no Ikea e das sardinhas gordurosas de Alfama, este é um dos grandes acontecimentos culturais do mês.

15.6.09

até amanhã

As palavras que se dizem entre álcool e fumo ganham asas e fogem. Ficamos com a ideia de que foram, na sua breve existência, geniais, só porque ajuda a alimentar o mito. Sim, o mito. A nossa vida só faz sentido a prestar contas a sucessivos pequenos mitos que vamos alimentando com ar e imaginação. Se não fossem eles, muitas vezes nem sequer nomeados, muitas vezes apenas latentes nalgum canto da nossa memória, tudo seria branco ou preto, nem a coexistência das duas cores seria permitida. As conversas são linhas que se atam e desatam, que experimentam novas combinações, que se enrolam às pernas, que articulam os dedos e os gestos, que puxam o sorriso, que pescam lágrimas, que atam nós na garganta e no estômago. Tudo mitos> mentiras> histórias> lendas> conversas. Deixa tudo de existir (ou apenas voam para longe) quando pousamos o copo e vamos para a cama. Até amanhã (mesmo que longe demais).


(se este fernando cunha não estava tão melhor a fazer isto...)

2.6.09

Claudia

Quando a entendo, os meus dias são negros.

29.5.09

B&C

A propósito da notícia sobre a abertura ao público do processo Bonnie&Clyde pelo FBI, sinto-me impelida a falar de liberdade. Não condeno nem perdoo esta dupla pelos crimes que cometeu, mas invejo-os pelo que sentiram durante esses dois anos de fuga. Penso que não haverá maior liberdade do que estar sempre na iminência de a perder. Todos nós, os mortais, jamais sentiremos a vida a pulsar nas veias como tambores primordiais; jamais, como eles, seremos baleados até a vida, a dignidade e a beleza (mas não a memória) abandonar o corpo desfeito.

O Mickey e a Mallory são a actualização muito stoniana/ tarentiniana deste mito.
Também os tenho no altar, mas dos loucos.
Estes não.

25.5.09

L. Garrel

(reminder: percurso até agora imaculado, a seguir)

18.5.09

emoções

Se eu tivesse tempo, criava um blog elaboradíssimo anti-rita red shoes.

Por outro lado, ainda bem que eu não tenho tempo para essas coisas, transformar-me-ia num ser desprezível, alimentando a minha ira dessa forma. Assim, não lhe dou muita conversa, não lhe dou lugar, viaja sempre de pé, a acotovelar tudo e todos, mas à pressa, e, por isso, apenas de passagem. Fiz esse contrato com a minha harmonia.

Gosto de personificar emoções. Povoam-me os quartos vazios da alma.

17.5.09

Visita

Parece que se respira novos ares na blogosfera.

Benditos os audazes!

12.5.09

lady in distress

Isto dos blogs às vezes irrita-me.

Mais ainda quando vejo o verbo conjugado.
Parece algo semelhante a vomitar.
E reparo que é mesmo.

4.5.09

os vivos


A construção de um indivíduo marca-se e conhece-se por coisas como esta.

Quem conseguir ouvir isto e mais isto, que é a continuação, e não sentir a pele a eriçar, não sentir sua a raiva de gritos ensurdecedores, não sentir as lágrimas a romper, quem não reconhecer este homem como um dos poucos vivos que para aí há a percorrer a terra, está morto.

O José Mário Branco, assim como quase tudo o que conheço hoje de música e dos vivos, veio pela tua mão, que já é minha também, que é nossa. Veio e virá, porque tu és inesgotável e eu só espero conseguir ser sempre insaciável.

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
(...)
Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.

29.4.09

dans paris

Depois de rever de battre mon coeur s'est arrêté quero (re)ver este. mais do que os realizadores, os actores são as minhas meadas nas escolhas cinéfilas. tento não as perder.

23.4.09

JP

só gosto tanto dele porque ele tem tanto de ti.

Estatelou-se docemente contra o céu*

A minha geração, já se calou, já se perdeu, já amuou,
já se cansou, desapareceu, ou então casou, ou então mudou
ou então morreu: já se acabou.

A minha geração de hedonistas e de ateus, de anti-clubistas,
de anarquistas, deprimidos e de artistas e de autistas
estatelou-se docemente contra o céu.

A minha geração ironizou o coração, alimentou a confusão
brincou às mil revoluções amando gestos e protestos e canções,
pelo seu estilo controverso.

A minha geração, só se comove com excessos, com hecatombes,
com acessos de bruta cólera, de morte, de miséria, de mentiras,
de reflexos da sua funda castração.

A minha geração é a herdeira do silêncio,
dos grandes paizinhos do céu,
da indecência, do abuso.
E um belo dia fez-se à vida,na cegueira do comércio

A minha geração é toda a minha solidão,
é flor da ausência, sonho vão,
aparição, presságio, fogo de artifício, toda vício, toda boca
e pouca coisa na mão.


A minha geração não é esta. Mas não a descreveria melhor. Afinal todos os pós-25-de-Abril-antes-de-qualquer-outra-coisa-melhor se definem pelas mesmas linhas.

Somos a geração que se pensa. Não pensamos em política, as lutas terminaram, tudo se faz agora não pelo punho, mas pela letra. Não havendo por que lutar olhamo-nos ao espelho e vemo-nos vazios. Anulámo-nos. Porque, no fundo, o Miguel Guilherme é que tinha razão quando, com a G3 às costas e uma linha de combate no horizonte, afirmou: o homem foi feito para guerrear. Para matar.

Tudo o resto dá em suicídio. Quer te mates quer não.

*e este verso toca o Belo absoluto. a lembrar as câmaras lentas dos filmes orientais em que heróis perfeitos esvoaçam pelas florestas

20.4.09

fraquezas

(aumentem, por favor, que isto não é nada)


A julgar pelas réplicas que recebo quando falo no assunto, percebo que isto é uma fraqueza.

Gostar de x-men não é socialmente aceitável, principalmente quando: a) já ultrapassaste os 25; b) sabes ler e escrever; c) não grunhes quando tentam comunicar contigo.

Como considero que me estou a cagar para o socialmente aceite, tenho a declarar que o Wolverine é e será sempre o meu herói. Não me venham com merdas!

Posso gostar dele e do Tabucchi, que o meu cérebro não entra em colapso

.

19.4.09

Tabucchi e eu

Lisboa aparece-me debaixo dos passos. É mais um daqueles sonhos em que ando incansavelmente. Percorro ruas que conheço bem, mas que ali não sei aonde vão dar. Lisboa é, na maior parte das vezes, o cenário. Já cirandei pelo Porto, também. A conseguir controlar estes percursos oníricos, daria a volta ao mundo em sensivelmente 80 sonhos, a julgar pela velocidade de cada um. Isto de andar a reler os sonhos dos outros, esta ideia admirável do Tabucchi, fez-me sonhar com os outros sonhos dos outros. O sonho de Fernando Pessoa jogava com a sua heteronímia e o de Toulouse Lautrec com o Moulin Rouge e a utopia da beleza. O que seria o meu sonho descrito pelo Tabucchi? Não sou ninguém. Não tenho nenhum traço que as pessoas possam identificar. Seria talvez em Lisboa, como este está a ser. Estou na rua de São Bento, desço pelo Passos Manuel e vou dar à Calçada do Combro. Compro um livro na livraria brasileira e pago com um botão que se descosera do casaco. O Tabucchi bem me segue, com um bloquinho em riste, mas ainda não encontrou nada que valesse a pena. Sinto-me pressionada, terei de fazer uma pirueta ou escrever um livro de pé enconstada a uma cómoda. Onde vou encontrar uma cómoda a estas horas no Chiado? Sim, já chegámos ao Chiado. Sento-me com Pessoa. Não suporto estar aqui, resmunga. Deixa-te estar, ao menos o Tabucchi já escreveu o teu sonho. Penso: isto tem de dar uma reviravolta, não posso só andar aqui de um lado para o outro. Levanto-me de repente da mesa e, quando olho para os pés, a terra treme e percebo que estou em 1 de Novembro de 1755. O Fernando levantou-se primeiro do que eu e já ía a correr em direcção ao Cais do Sodré, mas depois percebeu que vinha um tsunami e vejo-o a correr pela Trindade acima. Receio ter escolhido um cenário demasiado catastrófico, não há sinal do meu persecutor. Ando calmamente entre as gentes em pânico, até porque isto é um sonho, não há propriamente risco de morte, e gozo este poder estranho. As pessoas não reparam em mim, provavelmente serei invisível neste corpo só metafísico. Mas duvido logo quando me sinto sacudida por alguém: é o Tabucchi, e tem a boina torta e o pouco cabelo desgrenhado, o que me aflige. Estás louca? Porque é que nos trouxeste para aqui? Vamos morrer! Não, isto é só um sonho. Vim para aqui, achei que era mais interessante que vadiar pelo Chiado no séc. XXI. Isto não é um sonho, além disso já perdi a caneta e o bloco, já não posso escrever mais nada sobre ti. Já tinhas escrito alguma coisa? Claro, já estava praticamente no fim, um dos mais brilhantes sonhos alheios que já escrevi.

E pronto. Os meus sonhos, como quase tudo na minha vida, correm sempre mal por alguma má decisão que tomei, precipitada, pelo caminho.