25.2.09

A culpa é da vontade


humanos em variações.

nó cego

Mais uma vez, o turbilhão. Novamente a tempestade. Nada na minha vida corre como esperado. Pelo menos não as grandes mudanças. Nunca consegui planear nada, que as malditas Parcas a meio das fiadas do meu destino enlaçam um nó cego que vira tudo ao contrário. Não tem necessariamente de ser mau. Não é. Na maior parte das vezes a tempestade até me lavou o asfalto e arrancou as daninhas. Estou simplesmente de mãos na cabeça a avaliar os estragos e concluo, quase surpreendida, que normalmente são do meu lado esquerdo.


- Why did you keep a diary all these years?

- To remember the links between events.

6.2.09

despejo

a fragilidade da flor.
a impiedade do espinho.

todo o sangue em nome da santíssima trindade.

(e morre aqui de morte natural toda a réstia de poesia que morava secretamente nos meus dedos. despejada assim a frio, para não o ser de outra forma, menos digna.)




16.1.09

Bílis

A contas com este espírito renovador de ano novo chego à questão que muitas vezes me pica os miolos insistentemente: como é que se esquece? Não me refiro ao varrer para debaixo do tapete que eu logo quando tiver mais paciência (ou mais maturidade) lido com isto. Também não é, obviamente, apagar a existência do sucedido, isso seria um caso agudo de amnésia. É antes nunca mais lembrar se ninguém perguntar. E, de tanto não lembrar, quando surge a pergunta, já está num substrato inofensivo. Arrumar dentro da gaveta e fechá-la sem pontas de fora. Como é que se faz isso? Terei propensão para "arrastar cadáveres"? O Miguel Esteves Cardoso escreveu uma crónica sobre como esquecer (amores), mas não me revi na especificidade do assunto, porque eu quero esquecer tudo, quero esquecer o mundo de anteontem com celebrações dionisíacas e não enlutada por fora e com os lábios pintados por dentro.


A psicanálise às vezes devia ser despejada pelo cano abaixo, já que tudo se poderia resolver dentro de um vocabulário muito mais simples: sou rancorosa. por isso não esqueço. a minha bílis segrega quantidades lancinantes de rancor. tenho dificuldade em perdoar e até (para não dizer principalmente) a mim própria.


Nem todos somos Narcisos apaixonados pelo nosso reflexo, às vezes ele reflecte mais do que a pele que nos cobre e somos confontados com a mais pura fealdade sem qualquer pudor. E que fazer com ela? Disfarçá-la? Escondê-la? Não. Primeiro que tudo há que trazê-la à vida, trazê-la connosco à rua e depois, estoicamente, matá-la.


Eis as provas dispersas do meu primeiro crime.

12.1.09

He came dancing across the water

Partilhar a mesma almofada há tanto tempo dá nisto: contágio irreversível. Comecei por achar a voz do Neil Young efeminada, depois apenas fraca, até que hoje a comparo a uma chama periclitante numa vela cujo rastilho já pouco tem por arder... mas continua a arder, há 40 anos de carreira. A sua voz é hoje um pouco da minha casa. Tem, a par da Joni Mitchell, o poder raro de me conseguir aconchegar no seu timbre. Entranhou-se. Mas tanto tanto que até dói.
(E falo apenas de timbres e sons e melodias, para falar das letras teria de discorrer sobre os poderes ancestrais da poesia. Aqui não dá.)
Obrigada por isso e por todo o tijolo, cimento e lágrima. E o que eu queria mesmo, com toda a força com que se pode querer e crer, era dar tanto quanto recebo. Aí tudo seria perfeito.

A t-shirt e boné à sem-abrigo, o esquecer-se sequer de olhar para o público, a pura curte de estar a tocar com os amigos e alongar a música até aos 11 minutos, só aumenta o grau de dependência.

3.1.09

young neil

Hello cowgirl in the sand... Is this place at your command? Can I stay here for a while? Can I see your sweet sweet smile?

maldita

A maldita melancolia de inverno-dezembro-fim-de-um-ano-início-de-um-novo-dia-chuvoso chegou e aconchegou-se descaradamente ao meu colo. Assim mesmo, sem ser sequer convidada para entrar quanto mais para estas intimidades. Nem mesmo com o meu ar indignado, perturbado até, e sucessivos suspiros impacientes ela se manca. A melancolia é mesmo assim, não se presta à boa educação, quando acha que deve entrar em cena, entra com tudo. Agora resta-me não deixá-la acomodar-se demasiado, ir dando as dicas para ela ir cochilar para outro lado, caso contrário estou feita. Vou recomeçar as minhas lides profissionais a arrastar-me pelos corredores, não quero isso, já basta que me apeteça fazer isso o ano todo, não quero efectivamente fazê-lo. Seria terrivelmente sincero da minha parte. E a sinceridade, como toda a gente sabe, já não se usa. Ite.

31.12.08

tempo já vivido mal vivido ou sem sentido

Tendo em conta que não mandei mensagens de ano novo feliz, triste, esperançoso, taciturno ou qualquer outra coisa que o valha, a ninguém, fica aqui a minha contribuição para essa legião supersticiosa que acha que se não disser não acontece.
Era bom era.

RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

CDA

E agora eu mais o meu ano novo cochilante vamos tratar de lavar a roupa suja do ano velho, que não primou pelo asseio, e receber o primeiro de janeiro sem merdas nem poeiras debaixo dos tapetes. Até p'ra o ano.

27.12.08

Doce misogenia

Quando a noite enfim lhe cansa, você vem feito criança p'ra chorar o meu perdão, qual o quê! Diz p'ra eu não ficar sentida, diz que vai mudar de vida p'ra agradar meu coração. E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado, como vou me aborrecer? Qual o quê! Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro os meus braços p'ra você.

17.12.08

pergunta

Como é que te deixou de bater o coração?
Foto: Ana Franco

incisão

Ler angústias nossas na folha de um livro escrito por outro punho é um dos meus mais requintados prazeres. É um aconchego que se senta ao nosso lado sem paternalismo e nos diz: eu sei. Não aquela festa na cabeça e um been there, done that que não deixa de dar um tom de desprezo pela nossa majestática dor, é um olhos nos olhos, um discreto, um mexer de lábios quase sem som: eu sei. Se há uma coisa para a qual deixei de ter paciência, com a mesma convicção com que se abandona um vício, é para seres que se acochilam no nosso ombro ou oferecem o seu já usado, para desabafar tristezas. Como se isso resolvesse alguma coisa. Se eu tiver uma bola de ténis entalada a meio do esófago durante semanas tossir um bocadinho não ma vai tirar de lá. É necessário uma esofagotomia com sangue e entranhas ao ar para começar a resolver o problema. E isso faz-se em local privado e reservado, é só precisar o local da incisão.

9.12.08

Instinto

Depois de explicar a Ilíada e a Odisseia, depois de descrever Aquiles, Heitor, Ulisses, pergunto: percebeste porque é importante?

Resposta: Não.

Depois disto, vou ali à ponte 25 de Abril não para me atirar, mas para atirar ao Tejo em tom sacrificial toda esta geração de inscientes arrogantes que cospe na cultura que lhes corre nas veias como um filho mal educado na cara enternecida da mãe. Arre!

6.12.08

Meu

Ah, eu quero te dizer

Que o instante de te ver

Custou tanto penar

Não vou me arrepender

Só vim te convencer

Que eu vim pra não morrer

25.11.08

La frontière de l'aube - Philippe Garrel- 2008

De quando em quando pensa-se o que afinal de contas se anda aqui a fazer debaixo do sol, na maior parte das vezes, saracoteada pelo vento e pela chuva, na menor parte. Quando se levanta o véu da rotina e se olha por baixo para ver o que de facto se passa cá dentro pode ser assustador. Nós, andarilhos durante o dia, trabalho casa, casa trabalho (sendo que o tempo em casa é para descansar do trabalho do dia e temer o trabalho do dia a seguir) ficamos viciados nas funções cerebrais que usamos diariamente e esquecemo-nos das outras. Que outras? Tudo o resto. O cd que se quer ouvir, o filme que se quer ver, a conversa que se quer ter, o abraço que se quer dar, o prato que se quer cozinhar(?), o amor que se quer dar, tudo coisas absolutamente viscerais para nos sentirmos vivos e que são colocadas num quase inconsciente hold indeterminado. Quando damos por nós, não tendo alimentado o coração e o que resta de uma gana meio esquecida, temos um buraco negro em vez destes orgãos vitais. Que fazer então a este sal que não salga? Recentemente vi o último filme de Garrel: La frontière de l'aube e devia ter caído logo em mim como uma revelação, mas não caiu logo, caiu mais tarde. E uma revelação tardia, devo admitir, tem um sabor ainda mais apurado. Havia uma mulher que fazia o que queria, que amava quem queria, que tinha o que queria. Enlouqueceu. Suicidou-se. Havia um homem que amou essa mulher, teve tudo o que quis, mas quando ela enlouqueceu ele não quis e afastou-se. Ela voltou dos mortos e assombrou-o na sua culpa muito viva. Suicidou-se. O que tem isto a ver com o início do meu raciocínio? O seguinte: se eu tivesse a vida que queria o que queria e de repente o homem que eu amasse me abandonasse e eu ficasse a olhar as paredes e a gritar aos meus ouvidos, suicidava-me. Por outro lado, não tendo tudo o que quero, não fazendo quase nada do que quero, mas tendo a pessoa que quero, esqueço-me de viver. Vantagens: lembrei-me agora. Desvantagens: será que ainda vou a tempo?


Este texto confuso e quase imperceptível para os seres que vivem fora da minha cabeça, nem a mim me fez sentido depois de uma segunda leitura, contudo, soube-me bem escrevê-lo, assim com um leve mas assertivo sabor a redenção. e, god knows, eu estava mesmo a precisar de uma.


20.11.08

Julianne Moore in Blindness, 2008

peixe morto

Para quê tudo isto? Quando reduzidos à condição original não somos mais que animais. Para quê explorar o raciocínio se ele nos leva ao abismo? E eu sempre tive vertigens, sempre senti um desejo intestino de saltar e nunca consegui.
Se eu apanhasse uma gaivota e a comesse a cru, com penas bico patas sangue e tudo? Se eu fizesse isso era mais humana por responder aos instintos ou era mais animal? E se eu lhe desse um tiro de uma distância educada e a embalsamasse? ao menos não sujava as mãos. E a única diferença é essa: as mãos limpas de sangue, as unhas asseadas, o obrigado, o com licença, o livro debaixo do braço, a vida arrumadinha dentro da carteira, é isso que me mantém do lado de cá.

Ou do lado de lá?

De que lado estou eu agora que escrevi estas palavras?

3.11.08

o passar dos dias range-me nos ossos e flui-me nas veias. sinto o tempo agora mais do que em qualquer outra altura da minha vida. atingi um ponto em que acho que sou adulta. e acho isso com a maior das certezas com que se pode achar. no entanto, hoje o dia é



indiferente.



mais indiferente do que qualquer outro três de novembro desde 1981. naquele tempo festejavam o meu aniversário. não digo que hoje não sou feliz (esse tipo de etiqueta simplesmente não se cola à minha pele), não me revejo num fósforo frio nem no mofo que se entranha no tecto, mas o aniversário pessoano é hoje o meu também, por tudo o resto.





30.10.08

evidence

my own private caos*

Declaro, não muito solenemente, que a partir de agora os posts deste blog vão ter etiquetas. Esta resolução surge não porque algum leitor atento me tenha pedido (imagine-se!), mas como parte de um processo de compartimentação interior a que me dedico há algum tempo. Tudo tem um ritmo e um lugar próprios. A organização chegou-me ao alpendre aos 27 anos, será que ainda vou a tempo de arrumar tudo?

Espero que não.

O meu lugar sempre foi do lado do caos.

*já agora sento-me humildemente ao lado de toda a gente que já usou este "my own private... anything" porque sou uma pessoa pouco original. uma das minhas piores qualidades é reconhecer-me constantemente nos outros.


16.10.08

your favourite darkness


Sentado na cadeira desejas tudo. Pensaste-te capaz de humanidades inteiras mas tens as mãos vazias. Olhas para trás e vês vidros atirados contra vidros partidos, vês o ruído das tuas batalhas perdidas, guerras ganhas por um coração obscuro. O cimento que te mantém de pé é o que te destrói aos poucos. És hoje aquilo que cuspiste para o lado ontem.

Ou julgas que és.

O que é que o espelho te devolve quando apagas a luz? Escuridão? Abre os olhos. Nunca deixaste de ser tu. Os anos passaram-te no desgaste epidérmico mas não te chegaram à alma. Quem julgas que és para desistires? Só aqueles que nunca rasgaram as mãos para ver as veias a vazarem o sangue é que podem desistir. Os outros ficam presos à vida por força de poemas pessoanos, timbres cohenianos e outros estupefacientes que tais. Estás aqui. Hoje. E o dia ainda nem sequer acabou.