10.2.10

plain song

Sempre me obriguei a ser alguém que não era. quero dizer: nunca soube muito bem quem era, no fundo, daí achar sempre que estava a fingir. Quando me falavam sobre mim soava-me sempre estranho e descabido, não por falta de sensibilidade das outras pessoas, mas porque eu própria não me reconhecia. Não me conheço. Não sei os meus limites. Não prevejo as minhas reacções. Adoro conhecer e falar com pessoas que são 100% seguras de si, absorvo tudo o que posso e às vezes acho que consigo ser assim, mas é tudo camuflagem, postiço. De fora para dentro. Na verdade é isso: sou camaleão: imito o que me rodeia. Se for preciso sou descontraída, desbocada, brejeira; noutra situação serei formal, pudica, diplomática. Não sei qual das duas me é mais natural. Volto a dizer, não me conheço. Quando tentamos viver em paz connosco próprios e com as pessoas que fazem parte das nossas vidas estes solavancos agigantam-se. Colossais monumentos ao que não devíamos ser (e intrinsecamente somos).
O verso do António Variações "são tudo fantasias que o cinema projectou no meu olhar" veste-me à medida. Sendo "o cinema" tudo o que vi(vi) ao longo da vida, as pessoas, as situações, os problemas, os filmes, os romances, os poemas, as palavras que esbarram quando somos rios a querer desaguar... Tenho a sensação de que sou um molde construído de fora para dentro, sem nada de meu cá dentro. deve ser normal. deve ser normal não querer viver isto de vez quando.

18.1.10

Feeling

Dennis Stock
Venice Beach Rock Festival, California, 1968



heart and soul. one will burn.




13.1.10

Dounia - Rokia Traoré

Não querendo cair na tentação de transformar este canto num videoblog, mas ao mesmo tempo caindo, aos poucos, por falta de tempo/criatividade/tempo, não posso, mesmo assim, não publicar isto.

6.1.10

Lhasa by Cohen's fire

belo belo belo (como diria manuel bandeira)

3.1.10

postal de ano novo

quando tens o mundo inteiro a torcer para que seja tudo bom outra vez, seria de esperar que alguma espécie de energia atravessasse os corações e concretizasse, de facto, alguma coisa. Mas isso não acontece, até porque a torcida só dura o tempo do álcool nas veias, a ressaca do dia 1 já escurece as perspectivas e mata os neurónios que festejaram o ano novo na noitada anterior.
as passagens de ano são sempre lugares de angústia para mim. esta começando por não ser, acabou por sê-lo também. invariavelmente. não há como contornar esta evidência: as grandes mudanças operam escavações miocardianas das quais nunca mais se recupera. pior é que a mudança de ano nem sequer é uma grande mudança. é um segundo que passa e um calendário que se rearranja. mas as pessoas que rasgam a folha do ano passado ainda o têm dentro delas e vai continuar, menos se tiver sido bom, mais se tiver sido mau. a grande mudança é um eco que se agiganta do tamanho do mundo e depois não é nada. varre-se com as serpentinas e com as garrafas partidas.
sei que o que quero aqui dizer afunda-se no mais gritante dos lugares comuns, mas tenho a necessidade de dizê-lo. até para me explicar a mim própria, por a+b, que a vida continua serena, sem sobressaltos e que se eu quero ver o mundo do alto de uma montanha, tenho de ser eu a erguê-la... da mesma forma que inevitavelmente escavarei e me afundarei em fossos profundos se me deixar ficar parada no mesmo sítio durante muito tempo.
o ano passado, por esta altura, sentei-o ao meu lado a dizer estas palavras, este ano vou rebuscar umas quantas dele também:

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

(CDA)



Um tempo que passou, Sérgio Godinho & Chico Buarque

30.11.09

nos anos 20 pousava-se assim. tivesse eu metade do dramatismo do olhar da elinor e seduzia-me ao espelho todas as manhãs. em vez de evitá-lo a todo o custo.

here comes joni again

Às vezes lavramos em terras alheias o nosso sofrimento. Sabem melhor as palavras cuidadas e a voz seráfica da Joni Mitchell para dizer o que aperta as veias e acelera a corrente sanguínea. É uma urgência que não se diz. Fica presa à música certa por finas pinças e cabe a quem sente articulá-la cuidadosamente e compreendê-la, como quem ordena as peças de um puzzle.
Por outro lado, nestes momentos, a rapariga com chapéu-de-chuva é uma personagem que me entra muitas vezes pelas palavras dentro. Intromete-se no que quero dizer e metaforiza-se no que me (co)move. Ela fica ali, sozinha, chapéu aberto contra o céu, desafiando o pior temporal que venha e que a leve em voos de mary poppins pelo mundo fora. Gosto dela pela coragem e pelo círculo fechado que a envolve sempre. Pelo rosto velado e sério, pelos pés juntos e disciplinados. Nunca ninguém entrará naquele círculo e assim ela estará sempre segura, apenas entregue ao vento e à sua vontade que é da mesma madeira que ergue o mundo.

i wish i was her. like she is me.



(e entretanto chega a Joni, a cantar my old man, a tempestade passa e a menina do chapéu-de-chuva não voou)

25.11.09


dark souls need dark songs to live

I can't hold this stateAnymoreUnderstand meAnymoreTo tread this fantasyopenlyWhat have I doneOhthis uncertaintyIs taking me overI can't mould this stageAnymoreRecognize meAnymoreTo tread this fantasyopenlyWhat have I doneOhthis uncertaintyIs taking me overIs taking me overTo tread this fantasyopenlyWhat have I doneOhthis uncertaintyIs taking me overIs taking me overIs taking me overOh It's all overyeahOh
It's
all
over

14.11.09

pergunta-faca

Isto de andar às voltas com o que se passa cá dentro não é saudável de todo, disse o velho sentado no banco à adolescente que lhe propunha um jornal gratuito. Não quer o jornal? perguntou, confusa. Há muitos anos que tento compreender por que razão abandonei os meus objectivos tão cedo, se é que alguma vez me movi com eles no fim da rédea. Talvez até nunca sequer os tenha domesticado. A rapariga hesitou em ir embora ou aceitar o cargo de estranha ouvinte para que tinha sido subitamente eleita. Querer o mundo inteiro por dentro, não é como querer ser médico ou advogado. Não há anos de estudo que se possam estoicamente desfiar até chegar ao título. Não se sabe qual é o caminho, vadia-se na vida e no mundo à espera que a estrada debaixo dos pés se faça andante e nos mostre o que desejamos ver. É duro, é doloroso e deixa um amargo de boca que entra pela língua e emana pelo corpo todo. A rapariga já pousara os jornais e sentava-se lentamente a seu lado. Descobrir cedo que se é um homem sem rumo é triste, principalmente porque a insensatez adolescente ludibria-nos e faz-nos acreditar que não ter rumo é ter todos à disposição. Não é. Quis tudo porque não tinha nada. E continuo sem nada? podias perguntar-me, se pensasses. Tenho isto para te dizer: é alguma coisa. Tenho a voz. Tenho o que trago nas mãos que não é mais que a força que trago nos braços. Essas palavras que trazes aí impressas também dizem isto tudo que eu estou aqui a dizer, não há nada de novo. Pelo menos cá fora, não há nada de novo, mas depois há o cádentro, dentro de cada um, a vida secreta de cada um é um universo paralelo. Essas palavras têm vidas secretas dentro que se translêm quando fechamos o jornal e deixamos dois minutos para pensar naquilo. A rapariga olhava-o sem compreender. Não podes compreender o que te digo, reconheces o som das palavras mas desconheces a lógica que as une. Que não é sintáctica, é vivencial. Contra isso nada se pode. A rapariga baixou os olhos, corada e ainda mais confusa formulou a pergunta possível: nunca foi feliz? O velho olhou-a magoado, levantou-se e foi-se embora. Deixou-a sozinha com a pergunta que tinha tanto de ingénua como de faca afiada. Caminhou com as mãos nos bolsos, cabisbaixo e a desejar nunca mais encontrar ninguém na vida.

7.11.09

you stupid girl

you pretend you're anything, just to be adored.

ou nos anos 90 a shirley chamava as coisas pelos nomes

2.11.09

sing it back

Hoje vestia esta fatiota de pedacinhos de espelho e ía abanar o rabinho a qualquer espelunca que pusesse a Róisín nas colunas. Hoje estou disco.

22.10.09

hoje



Aqui só estão dois, mas acrescenta-se mais um mítico Fausto Bordalo Dias e temos as três grandes lendas vivas da música portuguesa. E hoje cantam para nós. Benditos!

11.10.09

silêncio era bem melhor

a amália agora "passa a vida" na rtp memória. a amália era isto, a amália era aquilo. ai que saudades que eu tenho da amália. estão a passar as entrevistas todas que a amália dava (até naquele fabuloso programa apresentado pela Teresa Guilherme e pelo alter-ego heterossexual do Manuel Luís Goucha_ horror!). Até deu um programa de uma Alexandra Gama muito penteada e muito maquilhada a perguntar à Estela se as festas que a Amália dava em casa começavam com um jantar ou se íam directamente para a sala. muito bom jornalismo se faz hoje em dia. o cultural então, ui! O que vale é que amália era mulher para sobreviver até a uma fátima lopes e a um nuno graciano juntos ali a tentar esmifrar sadicamente a boatice do seu tempo. até dessa lama a amália saía de cabeça erguida. valha-nos isso, a sua voz e a sua graça. amen.

nova águia

Há dias ouvi alguém (não interessa quem, não interessa onde) a dizer qualquer coisa como isto: nós não queremos o progresso. o progresso é um movimento metálico e cinzento. nós queremos renascer e isso tem cor e tem vida.

é isto, não é?

7.10.09

desculpem lá, é só para gritar isto

...não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso! ... (FMI)