10.4.08

IV


I ain’t got anything to be scared of. O mundo foi feito à minha medida porque quando olho o horizonte e fecho as mãos em círculo, ele cabe lá, de ponta a ponta dentro das minhas mãos. Acho que funciona da mesma forma com as pessoas, se eu as olhar da perspectiva certa compreendo-as, vejo-as por dentro mais intimamente que qualquer radiologista. Por isso tomo toda a gente por garantida e desprezo-as uma a uma, perdendo o tempo necessário com cada indivíduo. Há desprezo mais letal que outro. Destilo o piorzinho porque sou assim desde que nasci, porque acho que o mundo cabe na minha mão e porque as pessoas são folhas de papel aderente à espera de uma superfície onde se possam colar e envolver. Toda a gente quer gente. Ninguém gosta de estar sozinho e atiram-nos isso à cara todos os dias como o cuspo de um miúdo mal-educado. E quem gosta de se ver ao espelho à noite sozinho, sem o abraço de ninguém, sem a mão de ninguém a fazer desenhos abstractos nas minhas costas? Gosto do eco dos meus passos em casa, da música alta e escolhida por mim, do pacote de cereais aberto há demasiado tempo porque me apeteceu deixar de gostar daquela marca. Gosto do mesmo destinatário em todas e cada uma das cartas, do único par de chinelos à porta, da minha cama que é grande demais para duas pessoas quanto mais para o meu corpo a desenhar arestas nos lençóis. Não tenho que ter medo de nada porque não há nada a temer no mundo. Vivo com a solidão aos pés e a morte ao ouvido. Nada há a temer senão aquele sol radioso com gargalhadas infantis que a vida me atira violentamente contra as persianas fechadas.

Foto: Ana Franco/Olhares

4 comentários:

Anónimo disse...

É um texto sedutoramente azedo. E se um dia se fizer um filme sobre ele será realizado por Lars von Trier.

Beijocas.

sophya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
sophya disse...

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
.
Carlos Drummond de Andrade


encontrei isto :) já deves conhecer mas toma lá na mesma... faz-me mto sentido e toca-me hoje!
porque é tão dificil...
o que fazer quando o teu passado mancha o teu presente? não sei o que fazer...vou esperar pela decisão...mesmo sabendo a resposta... ai rosita prometo que esta foi/é a ultima vez que deixo alguem entrar...

beijocas para ti e para a mari ;)

Anónimo disse...

Não se deve desistir dos outros por muito que se acredite estarmos a apostar em nós. "A felicidade só existe quando é partilhada." Desculpa a intromissão, Sophya. Um beijo.