8.4.08

IX


Levo-te no bolso na forma de um bombom que me deste. Nem acreditei quando me estendeste a mão e li com muitos vermelhos e dourados: Serenata de Amor. Que foleirice é esta? É foleiro, mas é giro, é kitsch!_ disseste como uma criança que acabava de verbalizar uma palavra nova. Tinhas a mania de seguir as tendências, defeito que te apontava não raras vezes. Sempre estipulei que uma pessoa que se deixa levar por modas não tem a cabeça certa, bem definida, não sabe quem é. Que raio quer dizer kitsch? Nos últimos anos já se vulgarizou, mas naquele dia em que a disseste parecia vir ainda com cheiro a novo, acabado de sair dos escaparates da língua inglesa. Tu também não sabias responder, formulaste uns exemplos pouco coerentes e no final disseste, isto é kitsch. Continuo sem saber, como calculas. Oh, és sempre tão quadrado! E assim terminavas este tipo de conversas, fazendo-me sentir 20 anos mais velho, com um robe de flanela aos quadrados e chinelos acima do meu número. O novo tem um brilho que esmaga qualquer argumento. Apesar da discussão semântica, guardei o bombom da discórdia no bolso com um sorriso agradado. Que fosse a coisa mais foleira ou kitsch, significava que te tinhas lembrado de mim e isso era tudo.


Foto emprestada daqui

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