10.12.10

a pensar noutra coisa

foto: Ana Franco

Acho que nunca estive tão perto de desistir de tudo. As coisas desmoronam-se à minha volta como torrões de areia, por falta de cuidado meu. O que é realmente importante mistura-se com o que é superflúo, mas tudo rui. Sem piedade, o mundo está a julgar-me pelos meus actos, cruamente, violentamente. E eu já não consigo reagir de outra forma que não passivamente. Como o enforcado que já sente o nó a forçar a traqueia, mas insiste em olhar uma vez mais o horizonte e pensar noutra coisa (o sol que aquece a pele, a brisa que refresca, o mel na língua, a noite na areia da praia). Só quero pensar noutra coisa. Ver o mundo a ruir à minha volta, mas pensar noutra coisa. Ver os gritos, ver a raiva da mesma forma que vejo o desprezo, a indiferença, as pessoas feridas por mim, os olhos baixos. Olhar tudo com o mesmo olhar perdido noutra coisa. Não encontro força em mim para outra reacção que não esta. Estou finalmente exausto.

Avisou ele antes de fugir e deixar tudo.

what a way to start a fire




broken with the break of day

(adoro esta música e este vídeo. adoro desde o arrepio até à lágrima)

8.11.10

sine qua non

O passado que ainda palpita deve ser devidamente assassinado.

Apalpar-lhe a carótida, sentir o pulsar e a sua localização exacta e, com o gume afiado da faca, forçar o corte.

15.8.10



facebook killed the blogger.


(ou então não, talvez seja só assim um comazito)


16.6.10

e hoje passei o dia com esta na cabeça...

´

The least you can do is keep quiet...

juro!

Ter um filho é como ter todas as nossas fragilidades interiores a passear-se por aí. É como andar de peito aberto, com o coração e pulmões e tudo sem a protecção torácica, assim expostos a todo e qualquer mal que o vento ou a vida traga.


E não é que é mesmo? Não há esterno que sele esta inevitabilidade.

24.5.10

olhar

não vás.
foto: Alyssa Noches

all love songs are sad songs


Brewton, Alabama at The Colonial Inn,
Hot day, old orange juice and vodka on a night stand.
There's a Chevy Nova with the seat burned out the back
From a Winston cigarette that was sthumped into the window.
Bobby Long was like Zorba the Greek,
Side-tracked by the scent of a woman.
Could've been an actor on the moviescreen,
Stayed in Alabama just a dreamer of dreams.
He played football against W.S. Neil
Should've seen him running down the field.
I grow old, I grow old, I wear the bottoms of my
Trousers rolled.
It's a love song for Bobby Long.
A love song for Bobby Long.

He was a handsome man, he had Cherokee cheeckbones.
A fair haired boy, where did he go wrong?
He chose the road less travelled, made all the difference.
Now he's chastized, criticized, he don't make no sense.
Brewton called him crazy, said Bobby Long was nothing but a drunk.
But all the thoughts in his head was way passed anything they done thunk.
It's a love song for Bobby Long.
A love song for Bobby Long.

But don't get me wrong, Bobby Long wasn't no good.
He'd drag you down if he thought he could, Well he would, drag you down.
The road I ride will be the death of me.Won't you come along?
The road I ride is gonna set me free.It's gonna take me home.
He was a friend of my papa's he used to drink and tell lies.
Praised Flannery O'Connors, smoked cigarettes and philosophied.
So here I am at The Colonial Inn.
Me and Cap'n Long and my pretty girl-friend.
Well he charmes her with a poem, then he brakes down and cries,
Smiles a crooked smile, with his broken cheeck-bone side.
Tells about his life, now he's 63.
He looks me in the eyes and says come and go with me.
He could walk on water, walk on water,
But you know he drowned himself in wine.
God and the devil, God and the devil, God and the devil along inside his mind.
It's a love song for Bobby Long.
A love song for Bobby Long.


29.4.10

holocausto (s. m.)
1. Sacrifício em que a vítima era consumida pelo fogo.
2. A vítima oferecida em holocausto.
3. Fig. Sacrifício; imolação; expiação.

16.4.10

Ligações Perigosas, René Magritte.

11.4.10

direct you into my arms...

Jean, genie

Há rostos perfeitos. O da Jean Seberg é um deles. O da Natalie Portman também. O da Chan Marshall também pode ser, mas se dúvidas há, ela canta e atinge a perfeição. Não se trata de não terem falhas. Trata-se de serem ímans. De possuirem o equilíbrio perfeito entre as linhas, o olhar adequado, a boca extraordinariamente bem desenhada. Para mim, todas elas são pequenas Vitórias da Samotrácia que se passeiam por aí, livres dos pedestais e da quietude dos museus.

Ah, e esqueci-me de dizer, ainda que esteja implícito: dá-me um incomparável e indiscritível prazer olhá-las.

7.4.10

/ela outra vez/

/expectante/

gegen die wand | head on | contra a parede

I feel you

Your sun it shines

I feel you

Within my mind

You take me there

You take me where

The kingdom comes

You take me to

And lead me through Babylon

This is the morning of our love... It's just the dawning of our love

5.4.10

filled with secrets



Desde que li na Uncut (por conselho alheio, que não é periódico da minha lide habitual) uma entrevista ao David Lynch e ao Mark Frost a propósito da genial criatura que ambos pariram: Twin Peaks, em que admitiam a possibilidade de a misteriosa Laura Palmer ser inspirada na não menos indecifrável Marilyn Monroe, desde esse momento que a minha cabeça anda a mil! Não que eu andasse a ler tudo o que o Lynch alguma vez tenha dito sobre a série, à procura de respostas, mas, ainda que desatenta, a verdade é que nunca me tinha chegado nada que me ajudasse a compreender (melhor) a Laura Palmer. Quando li as tais palavras, e cito: The "other thing" [Twin Peaks] had one or two aspects in common with Godess*, not least a doomed blonde fated to die at the hands of duplicitous characters, algo aconteceu. Parte do meu imaginário, a parte que é habitada pelo Bob, pela Laura, pelo Leland, pelo cheiro matinal de tarte e café no Double R, entre outros pormenores estruturantes da pessoa que sou hoje, estremeceu. It can't get more from the guts, i tell you. Não é nada de muito inteligível o que tenho para dizer sobre isto. Aliás o que tenho para dizer é isto: percebi, com estas sábias mas quase triviais palavras do Lynch, que, para mim, a Marilyn e a Laura são manifestações da mesmíssima complexa, angustiada, perturbada e múltipla pessoa ... e eu nunca me tinha lembrado disso. Foda-se.


*uma biografia de Marilyn por Anthony Summers.



....she is filled with secrets...

2.4.10

Ía escrever um post, mas não posso, tenho a sopa a ferver.

12.3.10

diz-se dele que não sorria

Buster Keaton

Sempre me impressionaram as pessoas que não transparecem as emoções. Talvez isso seja esperado dos actores, mas mesmo assim acho que há um limite para o muro que se constrói entre nós e o mundo. Este olhar é dos mais fundos que já vi e, no entanto, pairam sozinhos num rosto que não sorri. Isso parece-me terrivelmente triste. Nunca conseguiria rir num filme dele, consideraria um acto sádico que ultrapassaria todo o meu cinismo.


vai com deus e... neh nah nah nah

27.2.10

Os dias correm mansos quando estão alinhados no tempo pela trança da rotina. De vez em quando há fios que se querem soltar, rebeldes, não querem entrançar com o próximo, mas acabam por dobrar a vontade eriçada e desaparecer no meio da tessitura grossa. Até um dia, por acaso, um fio ser puxado, e toda uma tapeçaria gigantesca e barroca de traço se desfaz num ápice.

Resta-nos os dias loucos que nos sacodem, nos lembram que estamos vivos e enlaçam nós cegos que nunca mais na vida iremos conseguir desfazer. Nem esquecer.

10.2.10

plain song

Sempre me obriguei a ser alguém que não era. quero dizer: nunca soube muito bem quem era, no fundo, daí achar sempre que estava a fingir. Quando me falavam sobre mim soava-me sempre estranho e descabido, não por falta de sensibilidade das outras pessoas, mas porque eu própria não me reconhecia. Não me conheço. Não sei os meus limites. Não prevejo as minhas reacções. Adoro conhecer e falar com pessoas que são 100% seguras de si, absorvo tudo o que posso e às vezes acho que consigo ser assim, mas é tudo camuflagem, postiço. De fora para dentro. Na verdade é isso: sou camaleão: imito o que me rodeia. Se for preciso sou descontraída, desbocada, brejeira; noutra situação serei formal, pudica, diplomática. Não sei qual das duas me é mais natural. Volto a dizer, não me conheço. Quando tentamos viver em paz connosco próprios e com as pessoas que fazem parte das nossas vidas estes solavancos agigantam-se. Colossais monumentos ao que não devíamos ser (e intrinsecamente somos).
O verso do António Variações "são tudo fantasias que o cinema projectou no meu olhar" veste-me à medida. Sendo "o cinema" tudo o que vi(vi) ao longo da vida, as pessoas, as situações, os problemas, os filmes, os romances, os poemas, as palavras que esbarram quando somos rios a querer desaguar... Tenho a sensação de que sou um molde construído de fora para dentro, sem nada de meu cá dentro. deve ser normal. deve ser normal não querer viver isto de vez quando.

18.1.10

Feeling

Dennis Stock
Venice Beach Rock Festival, California, 1968



heart and soul. one will burn.




13.1.10

Dounia - Rokia Traoré

Não querendo cair na tentação de transformar este canto num videoblog, mas ao mesmo tempo caindo, aos poucos, por falta de tempo/criatividade/tempo, não posso, mesmo assim, não publicar isto.

6.1.10

Lhasa by Cohen's fire

belo belo belo (como diria manuel bandeira)

3.1.10

postal de ano novo

quando tens o mundo inteiro a torcer para que seja tudo bom outra vez, seria de esperar que alguma espécie de energia atravessasse os corações e concretizasse, de facto, alguma coisa. Mas isso não acontece, até porque a torcida só dura o tempo do álcool nas veias, a ressaca do dia 1 já escurece as perspectivas e mata os neurónios que festejaram o ano novo na noitada anterior.
as passagens de ano são sempre lugares de angústia para mim. esta começando por não ser, acabou por sê-lo também. invariavelmente. não há como contornar esta evidência: as grandes mudanças operam escavações miocardianas das quais nunca mais se recupera. pior é que a mudança de ano nem sequer é uma grande mudança. é um segundo que passa e um calendário que se rearranja. mas as pessoas que rasgam a folha do ano passado ainda o têm dentro delas e vai continuar, menos se tiver sido bom, mais se tiver sido mau. a grande mudança é um eco que se agiganta do tamanho do mundo e depois não é nada. varre-se com as serpentinas e com as garrafas partidas.
sei que o que quero aqui dizer afunda-se no mais gritante dos lugares comuns, mas tenho a necessidade de dizê-lo. até para me explicar a mim própria, por a+b, que a vida continua serena, sem sobressaltos e que se eu quero ver o mundo do alto de uma montanha, tenho de ser eu a erguê-la... da mesma forma que inevitavelmente escavarei e me afundarei em fossos profundos se me deixar ficar parada no mesmo sítio durante muito tempo.
o ano passado, por esta altura, sentei-o ao meu lado a dizer estas palavras, este ano vou rebuscar umas quantas dele também:

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

(CDA)



Um tempo que passou, Sérgio Godinho & Chico Buarque