29.12.07

candy not "candide"

A rapariga com um protector de orelhas esperava o metro com os livros debaixo do braço. Tinha aquele ar fresco e irritantemente sadio de uma adolescente. Bonita, demasiado bonita. Revelava uma preocupação exagerada com a indumentária. Notava-se na particularidade dos acessórios, na vaidade que transparecia e na procura de olhares cobiçosos. Nestas situações pergunto-me quem é a vítima e quem é o predador: se a inocente adolescente se o solitário cinquentão. O quadro é quase identicamente absurdo a uma suculenta zebra a passear-se despreocupada entre leões esfomeados. A única coisa que impede os leões esfomeados de saltarem para cima da zebra é mesmo só a filha da puta da racionalidade. De que alguns abdicam e depois são presos. Antes vestissem uns trapinhos menos chamativos à zebra, já que a racionalidade já não é o que era.

PS: post assumidamente escrito em estado de ressaca do filme Hard Candy (2005). Não gostei assim por aí além, ou seja, não gostei muito, mas faz pensar numa polémica ou duas.

2.12.07

Assim por estes lados...


em silêncio. em casa. em reflexão.
às vezes faz falta, outras não há alternativa.

9.11.07

Lost woman song - Ani Difranco

i opened a bank account
when i was nine years old
i closed it when i was eighteen
i gave them every penny that i'd saved
and they gave my blood
and my urine
a number

now i'm sitting in this waiting room
playing with the toy
sand i am here to exercise
my freedom of choice
i passed their hand
held signs
went through their picket lines
they gathered when they saw me coming
they shouted when they saw me cross
i said why don't you go home
just leave me alone
i'm just another woman lost
you are like fish in the water
who don't know that they are wet
as far as i can tell
the world isn't perfect yet
his bored eyes were obscene
on his denim thighs a magazine
i wish he'd never come here with me
in fact i wish he'd never come near me
i wish his shoulder
wasn't touching mine

i am growing older
waiting in this linesome of life's best lessons
are learned at the worst times
under the fierce fluorescent
she offered her hand for me to hold
she offered stability and calm
and i was crushing her palm
through the pinch pull wincing
my smile unconvincing
on that sterile battlefield that sees
only casualties
never heroes
my heart hit absolute zero...

17.10.07

I declare that the Beatles are mutants...

...prototypes of evolutionary agents sent by God with a mysterious power to create a new species _ a young race of laughing freemen.*

Declaro-me oficialmente parte da Beatlemania. Hoje, 40 anos depois do grande boom desta banda. Parece incrível, a destempo, despropositado até, não fossem estes 4 meninos os maiores génios da música do século XX. Com este pressuposto não será de estranhar que alguém algures no século XXIII chegue à mesma conclusão. Talvez seja demais este superlativo absoluto, talvez não seja. Opiniões há muitas. Aliás, como outras coisas, cada um tem a sua. Mas, digam-me, assim de repente, lembram-se de alguém que tenha feito mais (pela) música em tão pouco tempo?

(Obrigada a quem me despertou para este fenómeno. Sei que não sou uma discípula muito aplicada, mas, a meu ritmo, lá vou tirando as minhas conclusões.)

*Timothy Leary

ERRATA pós-post : Há que corrigir que o chamado boom dos Beatles foi em 1963, logo, há 44 anos e não há 40 como disse acima (isto depois de ser advertida e devidamente açoitada pelo meu mentor).

15.10.07

The Same Deep Water As You

kiss me goodbye pushing out before i sleep
can't you see i try swimming the same deep
water as you is hard "the shallow drowned lose
less than we" you breathe the strangest twist
upon your lips "and we shall be together..."

"kiss me goodbye bow your head and join with
me" and face pushed deep reflections meet
the strangest twist upon your lips and
dissapear the ripples clear and laughing break
against your feet and laughing break the mirror
sweet "so we shall be together..."

"kiss me goodbye" pushing out before i sleep
it's lower now and slower now the strangest
twist upon your lips but i don't see and i don't
feel but tightly hold up silently my hands
before my fading eyes and in my eyes your
smile the very last thing before i go...

i will kiss you i will kiss you i will kiss you
forever on nights like this i will kiss you i will
kiss you and we shall be together...

The Cure - Disintegration

12.10.07

Fios

Como é que as pessoas se ligam umas às outras? Amigos, amantes, família, há toda uma rede de ligações mais ou menos perigosas, mais ou menos intensas que acabam por tecer uma teia densa e quase indelével à nossa volta. Enquanto estamos distraídos a olhar para dentro nem notamos que um autêntico casulo se formou à nossa volta e todas as outras pessoas (aquelas que importam) estão do lado de fora.

Penso: a maior parte das pessoas vive assim a vida toda: com um emaranhado de fios à frente. Ligações antigas, ligações novas, ligações de sempre, todas se cruzam indiscriminadamente e já não sabemos qual o fio que devemos preservar com mais carinho, qual aquele que devemos romper o quanto antes. São todos iguais. E a vista para fora do casulo torna-se cada vez mais turva. Que fazer quando a emergência de salvar um dos fios surge? Como encontrar o fio que está tão frágil que precisa de ser reforçado, cuidado, acarinhado? Qual deles é? E a fonte não é nítida... Queremos olhar para fora do casulo, reconhecer o olhar que sabemos estar do outro lado, mas esta cegueira é a mais incapacitante de todas. O que resta?

Romper com todos os fios! Há que buscar forças e com uma implusão de revolta destruir este casulo com demasiados fios. Estalar todos eles de um só respiro. E depois? Reconstruir. Remendá-los. Um a um, aqueles que realmente te pertencem. Mas desta vez olhar e pegar em cada fio cuidadosamente e dar-lhe um lugar. Hão-de resistir. Hão-de até ficar mais fortes.

7.10.07

Putas

Os leitores são umas putas, amam-nos e depois deixam-nos. A. Lobo Antunes

Não será antes (ou pelo menos também) ao contrário? Não serão os autores as senhoras meretrizes que por detrás de uma montra, a cada romance, tentam agradar ao máximo de clientes possível de uma só vez? É claro que existem as mais elitistas, essas ou sobrevivem à conta de uma clientela fiel ou acabam a lavar escadas, piscando o olho ao desprevenido que passa, prometendo-lhe delírios se quiser descer até à arrecadação.

5.10.07

Joni



(porque a voz dela é límpida e inigualável. porque me faz lembrar momentos bons. porque há uma pessoa no mundo que entende.)

3.10.07

corpse

If I touch a burning candle
I can feel no pain
If you cut me with a knife
It's still the same
And I know her heart is beating
And I know that I am dead
Yet the pain here that I feel
Try and tell me it's not real
And it seems I still have
A tear to shed...

30.9.07

o meu caminho

O caminho para casa pode ser sempre o mesmo. Aliás, é sempre o mesmo. As mesmas ruas, os mesmos prédios, os mesmos cafés, até os mesmos rostos. Tudo já se afundou numa rotina tão profunda que arrancar daí seria uma tarefa de carne e sangue. Não quero arrancar nada. Quero e preciso da rotina. É no caminho para casa que a minha vida se endireita, que os fios se realinham no lugar próprio, que a poeira pousa. À medida que a estrada desaparece debaixo do meu carro, as horas passadas do meu dia diluem-se no asfalto e dão lugar a novos tempos. Horas por gastar. Por viver.

Se por acaso um dia optasse por um caminho diferente a novidade distrair-me-ía desta tão querida introspecção e realinhamento interior e o meu amanhã nasceria em caos.

Mas os imprevistos acontecem e hoje o meu caminho para casa estava cortado. Tinha de optar por outro. Decisão difícil. Não. Decisão impossível. Não quero optar por outro. Quero ir por aqui. Este é o meu caminho. Mas, minha senhora, a estrada está cortada, não pode. Tenho de poder. Tenho de ir por aqui, não percebe? Não vai ser possível. Como não? Posso ao menos ir a pé? Sim, penso que sim, mas...

Só espero que o carro esteja no mesmo sítio amanhã e que as minhas pernas não me doam insuportavelmente.

20.9.07

| note to self |

Enquanto os acontecimentos esperados constituem os nossos alicerces confiáveis, os inesperados são aqueles que mudam intrinsecamente a vida de qualquer um.

Incrível como passamos quase uma vida inteira a tentar construir algo, tijolo com tijolo, cimento e lágrima e de repente há um bombardeio inesperado que deita tudo por terra. Na estupefacção do momento tentamos recolher os destroços, apanhar as pedras, juntá-las, reconstrui-las no nada que agora nos rodeia. Não é possível. Tudo caiu por terra. A vulnerabilidade novamente.

O extraordinário é que em vez de lamentar a construção perdida, floresce um sorriso e dizemos abençoada bomba: não tinha reparado que a minha muralha tapava o mais lindo pôr do sol do mundo.

14.9.07

O tempo do Chico (II)



(aqui uma mulher de carne suor e lágrimas, de outro tempo, do tempo do Chico)

11.9.07

O tempo do Chico (I)

Gosto do Chico Buarque. Gosto de tudo nele. Da multiplicidade criativa, da voz mal colocada, dos olhos azuis, do ar de malandro, do ar tímido que ainda consegue ostentar, apesar dos 40 anos de palco, da simplicidade que brota de tudo o que faz, apesar de ser um génio reconhecido na cultura brasileira.

Surpreendentemente, até da misoginia que emana de muitas das suas letras eu gosto. Já me julguei e confrontei em prolongados solilóquios sobre esta aparente contradição entre o meu gosto e a minha personalidade que, não sendo feminista, é com certeza anti-misógina. No entanto, chego sempre a uma conclusão: nas palavras/voz do Chico, parece-me bem. Contraditório? Claro que sim. De todos os ângulos, mas tenho de admitir que é esta a verdade. Ouvir o Chico cantar aquelas músicas, normalmente na primeira pessoa de uma voz feminina a maldizer um qualquer malandro que é o amor da vida dela, deixa-me rendida. E ele sabe disso. Não do meu caso particular, como é óbvio (e uma pena, posso já agora acrescentar), mas do estado em que deixa todas as mulheres que ouvem aquilo. E é por isso que ele enjeita aquele sorriso meio tímido, meio malandro, meio qualquer coisa, todo chico quando canta: E ao lhe ver assim cansado/ maltrapilho e maltratado/ainda quis me aborrecer?/qual o quê!/ Logo vou esquentar seu prato/ dou um beijo em seu retrato/ e abro meus braços p'ra você. E pronto, com isto há suspiros juvenis de mulheres feitas por esse mundo fora, porque há um homem com uns olhos azuis incomparáveis, que escreve letras como se fosse uma mulher sobre maridos cafagestes que não sabem sossegar a passarinha e depois vêm para casa, ó querida, eu explico! e a querida desfaz-se porque ele não explica nada mas faz amor com ela até de manhã.

Mas, caros cavalheiros, desenganem-se! Não pensem que esta é uma fórmula simples de executar e de sucesso garantido. Muito pelo contrário. Eu, apesar de confessa vítima deste embuste de sotaque carioca, consigo ainda discernir que o segredo está no executante e não no acto em si. Ou seja, é o Chico que tem o tal je ne sais quoi (bolas, não me saía um lugar comum tão balofo há tempo), já que a estratégia é a mais velha do mundo. Onde é que andaste até esta hora? (mão na anca, colher de pau na outra, rolos na cabeça, avental... as esposas já não são assim nos anos 2000, pois não??) Humm... sabem que mais!? Reformulo tudo!

As mulheres já não são assim, os homens já não são como os das músicas do Chico. Na verdade, será mais correcto pensar que nos nossos dias as mulheres estão-se nas tintas para onde os maridos andaram porque tiveram a trabalhar o dia todo e só querem chegar a casa, tomar duche e relaxar. Os maridos também não estão para inventar desculpas e na maior parte das vezes estão demasiado cansados para chegar a casa e tomar a mulher de paixão assolapada e fazer amor até de manhã, até porque amanhã é dia de trabalho. Pois. É isso. Chico? Estás fora do teu tempo. As pessoas já não são apaixonadas umas pelas outras. Agora há coisas mais importantes. Há o trabalho. Há a internet. Há o telemóvel. A PS2, 3, PSP e isso tudo. Há, porque não?, os cães para passear, há os filhos para ir buscar ao infantário e o quality time com eles (1h, 1h30) até adormecerem e depois há a televisão. Felizmente há também as artes, a literatura, a música, há os álbuns do Chico para viajarmos ao passado. Aquele tempo louco em que as pessoas se amavam, odiavam, desejavam, traíam, voltavam e beijavam-se no fim. Deve ser por isso que gosto tanto deste malandro de olho azul e sorriso bonito.

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus, juro que não acreditei
Eu te estranhei, me debrucei
Sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei, e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Prá mostrar que 'inda sou tua
Até provar que 'inda sou tua

8.9.07

Lentes

As cores das coisas são sempre iguais. Ponho os óculos escuros, baixo-os e o mundo muda de tom, mas a cor é sempre a mesma. Não há grande surpresa. O azul torna-se azul escuro. O rosa torna-se rosa escuro.
Antigamente tinha uns óculos verdes. E antes disso tive uns azuis. Andava mais bem disposta nessa altura. O mundo era diferente. As cores misturavam-se. Um verdadeiro desafio à ordem natural das coisas.
Agora que decidi comprar uns óculos escuros, sem uma cor bem definida, ando desiludida com a previsibilidade cromática do mundo à minha volta.
Penso: como é que se pode aplicar este raciocínio às minhas relações interpessoais? Há sempre uma forma. Sempre me tentaram fazer engolir que a nossa forma de ver o mundo espelha de algum modo as nossas relações. É um tanto óbvio, não? Não é bem a descoberta de uma teora da relatividade... A forma como vemos o mundo está directamente ligada com a forma como nos relacionamos com as outras pessoas. Sim. Faz sentido. Até porque as outras pessoas fazem parte do mundo, não?
Ok, entrei na espiral. Estou tramada. Sempre que tento puxar de um raciocínio mais nonsense escorrega-me o calcanhar para esta espiral verborreica e era capaz de ficar aqui a noite toda a dizer nada.
Voltando ao início do texto, e para dar a ilusão de que esta divagação tem um mínimo de congruência, decido que a minha próxima aquisição vai ser uns óculos com uma lente de cada cor. Vou radicalizar a coisa. Se me der na gana, talvez arranje uns daqueles de cartão que se usavam nos anos oitenta para ver filmes a 3D (como o Monstro da Lagoa, o único de que tenho memória). E aí sim quero ver como isso se reflecte nas minhas relações interpessoais. My guess? Acho que vou de repente ficar sozinha. Ou então, se me distraio na estação do metro ainda me mandam uma moedinha para os pés_ coitadinha, pensam num nanosegundo, para depois me esquecerem para sempre. É isso mesmo. Sempre me fascinou a possibilidade de ser vista como louca sem o ser realmente (?!). Talvez seja mesmo isso: não só a minha visão do mundo é alterada pelos meus óculos de sol, como também a forma como o mundo me vê. Que conclusão brilhante.
Tenho de deitar estes fora, a minha vida vai mudar.

27.8.07

Termina-se um ciclo. Começa outro.
Assinala-se essa mudança de várias maneiras, mas a mais marcante é operada por forças exteriores no nosso quotidiano. Em última instância, dentro de nós.
Depois da revolução, tudo pousará lentamente e encontrará o seu lugar no mundo.
Felicidade serena, esta.

8.8.07

...porque antony e cocorosie juntaram-se e fizeram uma música perfeita

Antony :
Those, those beautiful boys
Those, those beautiful boys

Cocorosie :
Born illegitimately
To a whore, most likely
He became an orphan
Oh what a lovely orphan he was
Sent to the reformatory
Ten years old, was his first glory
Got caught stealing from a nun
Now his love story had begun
Thirty years he spent wandering
A devil's child with dove wings
He went to prison
In every country he set foot in
Oh how he loved prison
How awfully lovely was prison

Antony :
All those beautiful boys
Pimps and queens and criminal queers
All those beautiful boys
Tattoos of ships and tattoos of tears

Cocorosie :
His greatest love was executed
The pure romance was undisputed
Angelic hoodlums and holy ones
Angelic hoodlums and holy ones

Antony :
All those beautiful boys
Pimps and queens and criminal queers
All those beautiful boys
Tattoos of ships and tattoos of tears

(...)

(só uma sugestão, a letra é fabulosa, mas vale mesmo a pena é ouvir...)

5.8.07

Declara-se total inactividade e ausência de criatividade inerente ao quente mês de agosto. Nem uma ideia pinga desta testa atormentada pela passagem demasiado rápida do tempo. Resta-nos outros blogs, outras conversas, outras andanças. Por aqui nada se faz, nada se pensa, nada de novo... Não há-de ser nada. (a repetição do nada foi espontânea e sintomática). Há-de passar. E pela primeira vez a inércia é faca. Boas férias para quem está, para quem estará, para quem julga que está e para quem gostaria de estar!

25.7.07

É p'ra amanhã, bem podias fazer hoje...

A melhor sensação que alguém poderá ter será, certamente, a de alívio, de dever cumprido. Seja ele um alívio fisiológico, uma tarefa terminada, um amigo reconfortado, desapertar o soutien ao fim do dia ou uma tese de mestrado terminada, não interessa, é o melhor que se pode ter.


A expressão facial é mais ou menos eufórica conforme a situação, mas o sentimento cá dentro é o mesmo: Já está! Não preciso mais de me preocupar com isto! Está resolvido! O que eu gostava de poder dizer isto... Neste momento sinto-me como um alcóolico a sonhar com a cura, dentro de uma loja de bebidas: "Como eu gostava, mas..." e tufa, lá vai mais uma garrafa debaixo do braço, e atiro resignada para "amanhã" essa almejada utopia.


Como o meu fígado não se ressente se eu adiar eternamente uma tarefa, desconfio que não haverá nada mais, além da minha consciência, para me levar a atingir o desejado. Maldita consciência. Nunca confiei muito nela. Dizem que as pessoas mudam (mentira descomunal!), mas nunca ouvi tal coisa acerca das consciências...


Resta-me a religião. Dizem que é para onde nos viramos quando tudo o resto não funciona. Nao faz muito sentido, pois não? Estou cheia de problemas por resolver, não encontro soluções, então vou acreditar piamente em alguma força superior a quem possa entregar as responsabilidades e a minha sorte, pronto. Tenho muitas por onde escolher. Vou investigar e averiguar qual será a mais eficiente no que diz respeito a incitar o crente a trabalhar, abandonar o ócio, rever as prioridades e finalmente tirar pesos dos ombros... humm... assim de repente nada me ocorre. Sugestões aceitam-se.


Entretanto, o Variações é que sabe.

É p'ra amanhã
Bem podias fazer hoje
Porque amanhã sei que voltas a adiar
E tu bem sabes como o tempo foge
Mas nada fazes para o agarrar

Foi mais um dia e tu nada fizeste
Um dia a mais tu pensas que nao faz mal
Vem outro dia e tudo se repete
E vais deixando ficar tudo igual

É p'ra amanha
Bem podias viver hoje
Porque amanhã quem sabe se vais cá estar
Ai tu bem sabes como a vida foge
Mesmo que penses que está p'ra durar

Foi mais um dia e tu nada viveste
Deixas passar os dias sempre iguais
Quando pensares no tempo que perdeste
Então tu queres mas é tarde demais

É p'ra amanhã
Deixa lá não faças hoje
Porque amanhã tudo se há-de arranjar
Ai tu bem sabes que o trabalho foge
Mesmo de quem diz que quer trabalhar

Eu sei que tu andas a procurar
Esse lugar que acerte bem contigo
Do que aparece não consegues gostar
E do que gostas já esta preenchido

21.7.07

Shows start at dusk

Death Proof, Quentin Tarantino, 2007


Vale muito a pena ver. Pelos geniais diálogos tarantinianos. Pelas cenas propositadamente mal cortadas à la série B. Pelas "Girls" sempre tão bem escolhidas e a inflamar o peito de qualquer espectador com o verdadeiro Girl Power (as melhores: Rosario Dawson, Vanessa Ferlito e Zoe Bell, as herself). Por uma das mais fabulosas cenas de 'car crash' que me lembro de ter visto com direito a pernas a saltar e pneus a varrer pessoas (ele vai mesmo aos pormenores). Pelas duas horas que tivemos direito cá na Europa, em contrapartida pela falta da sessão dupla anteriormente prometida com Planet Terror do Rodriguez. Pelo Kurt Russel rebuscado de um quase anonimato, um verdadeiro duro, dos antiguinhos. E claro, pelo Tarantino a entrar discretamente no filme como uma personagem secundaríssima, mas marcante. Muito bom.

16.7.07

Jorge Palma revival

A propósito do lançamento do seu mais recente álbum Vôo nocturno, fui rebuscar aquele Jorge Palma antiguinho, dos anos oitenta, quando as suas letras eram inovadoras e as suas músicas surpreendentes. Quando ainda não havia ninguém que dissesse tão bem em português a alma crua e sempre um pouco nua, com um tom toldado de Johnny Walker. Sempre gostei e ainda gosto muito do Palma, apesar de ainda não ter ouvido o seu novo trabalho, de qualquer forma, temo que sempre ficarei agarrada à imagem já quase cliché do Jorge sozinho no palco, inclinado sobre o piano, com a garrafa de whisky à frente a recitar aquelas métricas impossíveis que se entranharam na memória de qualquer um que se tenha sentado a ouvi-lo.


A gente já não sabe o que há-de fazer com a lua
Gerou-se um curto-circuito no canal telepático
E a caverna clandestina por detrás da cascata
Onde os amantes se entregavam à eternidade
Hoje não passa dum moderno armazém de sucata

Existem mil produtos para encher o vazio
Criámos computadores para ampliar a memória
E todos nós temos disfarces para aumentar a confusão
Só não sabemos como fazer o amor durar
O grande enigma continua a dar-nos cabo do coração

"Olá, a que horas parte o teu comboio?
O meu é às cinco e trinta e três
Ainda falta um bom bocado,
Queres contar-me a tua história?
Espera, deixa-me adivinhar,
Vais recomeçar noutro lado...
Trazes escrito na bagagem
Que a coisa aqui não deu...
Quanto a mim, também me sinto um pouco desenraízado... "

Também o amor se adapta às leis da economia
Investe-se a curto prazo e reduz-se a energia
E quando o barco vai ao fundo ninguém quer ser culpado
Mas nunca é tarde para se ter uma infância feliz
O cavaleiro solitário ainda sonha acordado.

Nunca é tarde para se ter uma infância feliz
O lado errado da noite, 1985.