21.4.08

Hound Dog

(às vezes apetece-me disparar, sem piedade ou cuidado, o que as pessoas realmente são. E, em vez de esperar uma incrédula resposta, oferecer a imagem curvilínea das minhas costas. You ain't no friend of mine.)

17.4.08

Livre arbítrio

Vou chegar a casa e fazer a mala. Juntar apenas o que é indispensável à sobrevivência, não há espaço nem tempo para mais. Olhar todas as divisões e escolher um ou dois objectos para me lembrar do que fui. Deixar o resto a preencher as prateleiras, as paredes, os cantos. A casa vai ficar imóvel e silenciosa como outro dia qualquer antes de eu chegar. Desta vez não vou seguir o trilho já demarcado dos meus passos rotineiros. Vou cortar por um atalho novo, sem trilho, sem estrada, sem sentido, sem direcção. Posso seguir qualquer ponto cardeal que asas me crescerão nos braços, barbatanas entre os dedos, guelras por pulmões, tudo o que for preciso para chegar onde quero. As possibilidades que tomam forma na mente são as mesmas que tenho nas mãos. É só escolher.

The great escape - Marillion

16.4.08

Pina

(trazer no gesto, dóceis, os movimentos mais selvagens)

Aracne

As pessoas que vejo todos os dias começam a colar-se às paredes, às portas a fundir-se com as janelas, com as secretárias, a desaparecer por trás dos monitores, das fotocopiadoras. Fazem parte de um quotidiano leitoso e ensimesmado. Começo a não conseguir identificá-las quando penso em retrospectiva o dia de trabalho. Estar com elas ou sozinha é rigorosamente o mesmo, com uma diferença: estava melhor sozinha. Valem-me pequenos momentos de júbilo quando tenho oportunidade de desenjaular um comentário sarcástico e olhos boquiabertos se voltam em uníssono. Desculpa? E, calada, volto ao meu teclado, aos meus papéis, à minha solidão tão arduamente tecida em volta de mim.

14.4.08

Para ver as meninas



(se eu encontrasse um dia a Marisa, dizia-lhe: canta esta para mim, que morrerei feliz. e morria.)

10.4.08

IV


I ain’t got anything to be scared of. O mundo foi feito à minha medida porque quando olho o horizonte e fecho as mãos em círculo, ele cabe lá, de ponta a ponta dentro das minhas mãos. Acho que funciona da mesma forma com as pessoas, se eu as olhar da perspectiva certa compreendo-as, vejo-as por dentro mais intimamente que qualquer radiologista. Por isso tomo toda a gente por garantida e desprezo-as uma a uma, perdendo o tempo necessário com cada indivíduo. Há desprezo mais letal que outro. Destilo o piorzinho porque sou assim desde que nasci, porque acho que o mundo cabe na minha mão e porque as pessoas são folhas de papel aderente à espera de uma superfície onde se possam colar e envolver. Toda a gente quer gente. Ninguém gosta de estar sozinho e atiram-nos isso à cara todos os dias como o cuspo de um miúdo mal-educado. E quem gosta de se ver ao espelho à noite sozinho, sem o abraço de ninguém, sem a mão de ninguém a fazer desenhos abstractos nas minhas costas? Gosto do eco dos meus passos em casa, da música alta e escolhida por mim, do pacote de cereais aberto há demasiado tempo porque me apeteceu deixar de gostar daquela marca. Gosto do mesmo destinatário em todas e cada uma das cartas, do único par de chinelos à porta, da minha cama que é grande demais para duas pessoas quanto mais para o meu corpo a desenhar arestas nos lençóis. Não tenho que ter medo de nada porque não há nada a temer no mundo. Vivo com a solidão aos pés e a morte ao ouvido. Nada há a temer senão aquele sol radioso com gargalhadas infantis que a vida me atira violentamente contra as persianas fechadas.

Foto: Ana Franco/Olhares

9.4.08

Perfide Manon



Esta interpretação a mim basta-me para compreender a Brigitte, a Jane e outras tantas que se enlaçaram nos braços de Gainsbourg. Apesar de tudo.

8.4.08

IX


Levo-te no bolso na forma de um bombom que me deste. Nem acreditei quando me estendeste a mão e li com muitos vermelhos e dourados: Serenata de Amor. Que foleirice é esta? É foleiro, mas é giro, é kitsch!_ disseste como uma criança que acabava de verbalizar uma palavra nova. Tinhas a mania de seguir as tendências, defeito que te apontava não raras vezes. Sempre estipulei que uma pessoa que se deixa levar por modas não tem a cabeça certa, bem definida, não sabe quem é. Que raio quer dizer kitsch? Nos últimos anos já se vulgarizou, mas naquele dia em que a disseste parecia vir ainda com cheiro a novo, acabado de sair dos escaparates da língua inglesa. Tu também não sabias responder, formulaste uns exemplos pouco coerentes e no final disseste, isto é kitsch. Continuo sem saber, como calculas. Oh, és sempre tão quadrado! E assim terminavas este tipo de conversas, fazendo-me sentir 20 anos mais velho, com um robe de flanela aos quadrados e chinelos acima do meu número. O novo tem um brilho que esmaga qualquer argumento. Apesar da discussão semântica, guardei o bombom da discórdia no bolso com um sorriso agradado. Que fosse a coisa mais foleira ou kitsch, significava que te tinhas lembrado de mim e isso era tudo.


Foto emprestada daqui

7.4.08

Remar

Sigo-te sem olhar para trás, sem deixar pedras a marcar o caminho. Quero que esqueçamos um possível regresso. Somos assim. Não há para onde regressar. A tua revolta é a minha ainda que com cor e gesto diferentes. A tua voz é o meu farol. Guia-me, a noite (a vida) é nossa.

19.3.08

Cativa


Guardei as melhores memórias, calcei as luvas e levei-te pela mão como um cicerone numa casa de fantasmas. Não gostaste e choraste de raiva pelo chumbo que te atei aos pulsos para impedir que me acenasses a despedida. Querias ir embora e eu não te deixei, eras minha cativa. Contra o céu e as montanhas eras capaz de tudo, porém contra mim ficavas indefesa porque me amavas. O café de todas as manhãs era tomado sem açucar para relembrar que o doce já não existia e que a partir de agora usávamos as mãos nos bolsos e o olhar furtivo na porta em caso de fuga iminente. Não querias ir embora, eras minha cativa. O letreiro a pedir ajuda que os teus olhos desenhavam para onde quer que olhasses começou a não chegar às pessoas. O sol não nasce para ti, a aurora não é para ti, nada no mundo existe para ti. Só eu. Somos nós como sempre fomos e o sempre não acaba nunca. Deixaste a pele em sangue, arranhaste-me o rosto para conseguires esquecê-lo, mas eras tu que agora cuidavas das cicatrizes. Mudas de ideias como quem muda de canal, mas há muito que perdeste o controlo da tua mente. És minha, minha cativa.


(...)

17.3.08

Remember me

...With you my life, my life
Has been so wonderful
I need your love
I need you to hold
All day and all night
Remember me
Don't ever forget me child
We are all only here
Just for a little while
Please, please, remember me...*

Desejar que os dias passem direitos como uma flecha apontada ao coração. Querer olhar para trás sem ser apanhado nessa fraqueza. Mas diz-me, não moramos todos sob o jugo dos mesmos quereres? A bala que disparaste ao teu futuro fez ricochete e juntou-nos. Ainda bem.

*Otis Redding by Cat Power

10.3.08

Perdoai, que eles não sabem o que fazem

Morrer-te nos braços como quem sobrevive a um pesadelo interminável.
Querer agarrar os dias à força de rédeas invisíveis que há muito escorregaram dos dedos.
As mãos já não semeam, plantam ou colhem, são estéreis como a pedra macia que me nasceu no peito.
Querer agora que passem cem anos num segundo, fechar os olhos com força e desejar-te aqui, agora que já não queres.
Olhei-te com tanto sangue que me esvaí a teus pés e ao teu desprezo.

Liberta-me do chão onde me deixaste entranhar. És tu a culpa e o sol que me acordam de manhã.

it doesn't matter if we all die.

A vida às vezes é filha da puta, mas essa tal puta, coitada, com tantos rebentos por esse mundo fora, não tem a culpa da vida que eles escolheram.

6.3.08

Uma jovem turca que deseja correr para uma vida de sexo drogas e rock n' roll, longe dos pais demasiado rigorosos. Um homem esgotado por esse mesmo tipo de vida que parou de viver no momento da morte da sua esposa. Um casamento por conveniência. Um amor que floresce de um terreno de cimento e cal. Uma paixão que excede todos os limites. Uma catástrofe. O dia nasce desta vez com ele na prisão e com ela a tentar-se suicidar (encore une fois). Separados. Os anos passam, com ambos enjaulados na sua solidão, o amor sobrevive, mas o tempo tudo leva, tudo transforma e nada é como dantes.

Porém, Cahit renasceu das cinzas e Sibel nunca mais se tentou suicidar.

(foi a sinopse possível_ nunca as soube fazer, uma de várias tentativas e muitos adjectivos truncados, para completar o teaser. mas nada como ver o filme, até porque há imagens intraduzíveis ou mesmo inomináveis)

5.3.08

Trust (does anybody these days?)

Robert Smith na sua pálida e negra criatividade existe para semear um caminho de melancolia por onde quer que passe. Lisboa com certeza não será excepção no próximo dia 8. Espero de mãos postas juntar-me à procissão dos enfermos e prevejo que os sintomas da doença se prolonguem, pelo menos, até meados do mês. Desejo as melhoras a médio prazo aos meus pares e a tumba para quem não sabe do que estou a falar. No hard feelings.

there's no-one left in the world that i can hold on to. there is really no-one left at all. there is only you.

4.3.08

Contra a parede


If you want to end your life, end it. You don't have to kill yourself to do that.


Gegen die wand/ Head on - 2004

Hoje à noite vou relembrar isto e confirmar por que razão me senti completamente impelida por uma força superior a raptar esta preciosidade dos escaparates da fnac. Há filmes que deixam marca a ferro na pele e nas entranhas. este é um desses.

25.2.08

hoje não


uma menina levada pela mão da mãe, fixa-me de uma forma que me incomoda. demasiado séria para uma criança, demasiado triste. a mãe pára no quiosque e faz conversa com a vendedora. a menina continua a fixar-me, como se a minha presença ali, naquela esplanada, a intrigasse. como se o cigarro na minha mão fosse um estranho dispositivo e o jornal à minha frente uma bomba relógio pronta a explodir. olhava-me com pena, como se não quisesse que eu fizesse a bomba explodir. por favor. como se estivesse a mendigar a sua vida e a das outras pessoas que nos rodeavam. baixei a cabeça. como renunciar a um pedido tão sincero, tão terno? levantei os olhos e a sua expressão era como uma carícia da sua mão infantil no meu rosto áspero. apaguei o cigarro, levantei-me e deixei a bomba em cima da mesa a pulsar uma explosão eminente. que outra pessoa mais corajosa desafie o olhar daquela menina e faça explodir o mundo por mim. hoje não consigo.

20.2.08

Chan Marshall



Parece que esta gaiata vais estar novamente entre nós. Batam em latas! Estalem chicotes! Que desta vez vamos estar juntas! (na mesma sala pelo menos). Admiro-a sobretudo pela simplicidade. Pela forma como é linda, como canta, como compõe, como leva a vida, como sussurra you are free, como se vicia em tudo, como erra, como ser complexo que é e, ainda assim, como consegue ficar perfeita de franjinha, cara lavada, sardas e um campo de flores por trás. Sou assim todas as noites nos meus sonhos.

18.2.08

Chuva


Gosto de adormecer com o barulho da chuva a bater na janela. Gosto de acordar e ficar na cama a ver as gotas serpentear nos vidros. Gosto do nó no estômago feito do medo infantil que ainda tenho dos trovões. Gosto de calçar as botas, vestir a gabardina e sair à rua com o vento a atirar-me a chuva com força. Gosto de pisar as poças que os outros evitam. Gosto de chegar a casa encharcada, despir a roupa molhada e esquecer-me de tudo debaixo do duche quente. Sou uma criatura do inverno. Sou mais eu quando chove.

14.2.08

Porque o Dylan diz muito mais que esse tal de Valentim



...Now, little boy lost, he takes himself so seriously
He brags of his misery, he likes to live dangerously
And when bringing her name up
He speaks of a farewell kiss to me
He's sure got a lotta gall to be so useless and all
Muttering small talk at the wall while I'm in the hall
How can I explain?
Oh, it's so hard to get on
And these visions of Johanna, they kept me up past the dawn...

7.2.08

castigo dos deuses

A memória é o maior castigo da humanidade. Se nos lembramos de bons momentos a saudade entranha e faz perguntas que mais parecem percevejos, se nos lembramos de momentos maus sobe à garganta a angústia sentida nesses tempos e fica mais um dia estragado como um iogurte fora de prazo.
Se eu não estava bem melhor só com o meu presentezinho, sempre fresco, sempre acabado de viver e sem pó ou teias de aranha a atrapalhar-me os movimentos.

Quer-me parecer que assim provavelmente seria um peixe, sempre perdida algures num oceano inteiro para descobrir porque sem memória suficiente para saber onde já tinha estado. Dory?