19.3.08

Cativa


Guardei as melhores memórias, calcei as luvas e levei-te pela mão como um cicerone numa casa de fantasmas. Não gostaste e choraste de raiva pelo chumbo que te atei aos pulsos para impedir que me acenasses a despedida. Querias ir embora e eu não te deixei, eras minha cativa. Contra o céu e as montanhas eras capaz de tudo, porém contra mim ficavas indefesa porque me amavas. O café de todas as manhãs era tomado sem açucar para relembrar que o doce já não existia e que a partir de agora usávamos as mãos nos bolsos e o olhar furtivo na porta em caso de fuga iminente. Não querias ir embora, eras minha cativa. O letreiro a pedir ajuda que os teus olhos desenhavam para onde quer que olhasses começou a não chegar às pessoas. O sol não nasce para ti, a aurora não é para ti, nada no mundo existe para ti. Só eu. Somos nós como sempre fomos e o sempre não acaba nunca. Deixaste a pele em sangue, arranhaste-me o rosto para conseguires esquecê-lo, mas eras tu que agora cuidavas das cicatrizes. Mudas de ideias como quem muda de canal, mas há muito que perdeste o controlo da tua mente. És minha, minha cativa.


(...)

17.3.08

Remember me

...With you my life, my life
Has been so wonderful
I need your love
I need you to hold
All day and all night
Remember me
Don't ever forget me child
We are all only here
Just for a little while
Please, please, remember me...*

Desejar que os dias passem direitos como uma flecha apontada ao coração. Querer olhar para trás sem ser apanhado nessa fraqueza. Mas diz-me, não moramos todos sob o jugo dos mesmos quereres? A bala que disparaste ao teu futuro fez ricochete e juntou-nos. Ainda bem.

*Otis Redding by Cat Power

10.3.08

Perdoai, que eles não sabem o que fazem

Morrer-te nos braços como quem sobrevive a um pesadelo interminável.
Querer agarrar os dias à força de rédeas invisíveis que há muito escorregaram dos dedos.
As mãos já não semeam, plantam ou colhem, são estéreis como a pedra macia que me nasceu no peito.
Querer agora que passem cem anos num segundo, fechar os olhos com força e desejar-te aqui, agora que já não queres.
Olhei-te com tanto sangue que me esvaí a teus pés e ao teu desprezo.

Liberta-me do chão onde me deixaste entranhar. És tu a culpa e o sol que me acordam de manhã.

it doesn't matter if we all die.

A vida às vezes é filha da puta, mas essa tal puta, coitada, com tantos rebentos por esse mundo fora, não tem a culpa da vida que eles escolheram.

6.3.08

Uma jovem turca que deseja correr para uma vida de sexo drogas e rock n' roll, longe dos pais demasiado rigorosos. Um homem esgotado por esse mesmo tipo de vida que parou de viver no momento da morte da sua esposa. Um casamento por conveniência. Um amor que floresce de um terreno de cimento e cal. Uma paixão que excede todos os limites. Uma catástrofe. O dia nasce desta vez com ele na prisão e com ela a tentar-se suicidar (encore une fois). Separados. Os anos passam, com ambos enjaulados na sua solidão, o amor sobrevive, mas o tempo tudo leva, tudo transforma e nada é como dantes.

Porém, Cahit renasceu das cinzas e Sibel nunca mais se tentou suicidar.

(foi a sinopse possível_ nunca as soube fazer, uma de várias tentativas e muitos adjectivos truncados, para completar o teaser. mas nada como ver o filme, até porque há imagens intraduzíveis ou mesmo inomináveis)

5.3.08

Trust (does anybody these days?)

Robert Smith na sua pálida e negra criatividade existe para semear um caminho de melancolia por onde quer que passe. Lisboa com certeza não será excepção no próximo dia 8. Espero de mãos postas juntar-me à procissão dos enfermos e prevejo que os sintomas da doença se prolonguem, pelo menos, até meados do mês. Desejo as melhoras a médio prazo aos meus pares e a tumba para quem não sabe do que estou a falar. No hard feelings.

there's no-one left in the world that i can hold on to. there is really no-one left at all. there is only you.

4.3.08

Contra a parede


If you want to end your life, end it. You don't have to kill yourself to do that.


Gegen die wand/ Head on - 2004

Hoje à noite vou relembrar isto e confirmar por que razão me senti completamente impelida por uma força superior a raptar esta preciosidade dos escaparates da fnac. Há filmes que deixam marca a ferro na pele e nas entranhas. este é um desses.

25.2.08

hoje não


uma menina levada pela mão da mãe, fixa-me de uma forma que me incomoda. demasiado séria para uma criança, demasiado triste. a mãe pára no quiosque e faz conversa com a vendedora. a menina continua a fixar-me, como se a minha presença ali, naquela esplanada, a intrigasse. como se o cigarro na minha mão fosse um estranho dispositivo e o jornal à minha frente uma bomba relógio pronta a explodir. olhava-me com pena, como se não quisesse que eu fizesse a bomba explodir. por favor. como se estivesse a mendigar a sua vida e a das outras pessoas que nos rodeavam. baixei a cabeça. como renunciar a um pedido tão sincero, tão terno? levantei os olhos e a sua expressão era como uma carícia da sua mão infantil no meu rosto áspero. apaguei o cigarro, levantei-me e deixei a bomba em cima da mesa a pulsar uma explosão eminente. que outra pessoa mais corajosa desafie o olhar daquela menina e faça explodir o mundo por mim. hoje não consigo.

20.2.08

Chan Marshall



Parece que esta gaiata vais estar novamente entre nós. Batam em latas! Estalem chicotes! Que desta vez vamos estar juntas! (na mesma sala pelo menos). Admiro-a sobretudo pela simplicidade. Pela forma como é linda, como canta, como compõe, como leva a vida, como sussurra you are free, como se vicia em tudo, como erra, como ser complexo que é e, ainda assim, como consegue ficar perfeita de franjinha, cara lavada, sardas e um campo de flores por trás. Sou assim todas as noites nos meus sonhos.

18.2.08

Chuva


Gosto de adormecer com o barulho da chuva a bater na janela. Gosto de acordar e ficar na cama a ver as gotas serpentear nos vidros. Gosto do nó no estômago feito do medo infantil que ainda tenho dos trovões. Gosto de calçar as botas, vestir a gabardina e sair à rua com o vento a atirar-me a chuva com força. Gosto de pisar as poças que os outros evitam. Gosto de chegar a casa encharcada, despir a roupa molhada e esquecer-me de tudo debaixo do duche quente. Sou uma criatura do inverno. Sou mais eu quando chove.

14.2.08

Porque o Dylan diz muito mais que esse tal de Valentim



...Now, little boy lost, he takes himself so seriously
He brags of his misery, he likes to live dangerously
And when bringing her name up
He speaks of a farewell kiss to me
He's sure got a lotta gall to be so useless and all
Muttering small talk at the wall while I'm in the hall
How can I explain?
Oh, it's so hard to get on
And these visions of Johanna, they kept me up past the dawn...

7.2.08

castigo dos deuses

A memória é o maior castigo da humanidade. Se nos lembramos de bons momentos a saudade entranha e faz perguntas que mais parecem percevejos, se nos lembramos de momentos maus sobe à garganta a angústia sentida nesses tempos e fica mais um dia estragado como um iogurte fora de prazo.
Se eu não estava bem melhor só com o meu presentezinho, sempre fresco, sempre acabado de viver e sem pó ou teias de aranha a atrapalhar-me os movimentos.

Quer-me parecer que assim provavelmente seria um peixe, sempre perdida algures num oceano inteiro para descobrir porque sem memória suficiente para saber onde já tinha estado. Dory?

31.1.08

Hoje à noite vamos estar juntos...



22h, no Cine-teatro Joaquim d'Almeida, Montijo

30.1.08

nostalgia da infância


Acolhida por um sentimento no mínimo nostálgico, dei por mim a rebuscar o youtube por episódios da ana dos cabelos ruivos. Lembro-me dessa altura como quem se lembra de bolos quentes a sair do forno e de banhos longos com gargalhadas infantis e a casa de banho cheia de poças de água e espuma. Hoje sou eu que acelero os banhos, porque já estão a demorar muito tempo. Sou eu que limpo as poças e resmungo entredentes. Naquela altura achava a minha mãe uma chata por fazer isso. Não quero ser chata. Será tarde demais para não querer ser adulta?


Alguém um dia me disse que quando ouve falar de nostalgia de infância leva imediatamente a mão à carteira. Hoje é um desses dias. Não confiem em mim, que eu estou com a cabeça enfiada no baú das recordações.

28.1.08

A propósito

O sérgio faz-me lembrar que gosto de estar apaixonada por quem estou. Que a vida é bonita. E que os amores são o olhar cúmplice no brinde da noite.

A vida que tudo arrasta, arrasta os amores também. Uns dão à costa, exaustos, outros vão mais além, navegadores só solitários dois a dois, heróis sem nome e até por isso heróis.
Os amores são facas de dois gumes têm de um lado a paixão, doutro os ciúmes. São desencantos que vivem encantados como velas que ardem por dois lados.

Aos amores!


(desordeiros irresistíveis deleituosos entranhantes verdadeiros evitáveis buliçosos como dantes bicolores transgressores impostores cantadores)

Depois da dor, como conservar a inocência? Leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência e parta o vidro em caso de necessidade. Deixe o seu coração ir em liberdade.

Brindemos aos amores!

(adaptação livre de Aos Amores - Sérgio Godinho)

19.1.08

Inocência

Pra que mentir
se tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?
Pra quê?! Pra que mentir
Se não há necessidade de me trair?
Pra que mentir, se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?
Pra que mentir se eu sei que gostas de outro
Que te diz que não te quer?
Pra que mentir

Tanto assim
Se tu sabes que eu já sei
Que tu não gostas de mim?!
Se tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero

Ou por teu amor fingido?!

Texto: Noel Rosa
Foto: aqui

Às vezes olho por cima do ombro ou escuto uma conversa entrelinhas (ou ligo a tv) e pergunto-me com que pedra e com que cal se constróiem as relações nos dias de hoje.

16.1.08

(Il est) un soir d'éte

O Jacques Brel chegou. E é tal qual uma noite de verão no meu janeiro.

12.1.08

Beauvoir e Sartre


O que seria dos grandes pensadores, poetas e artistas do século XX se vivessem, como nós, num tempo em que não se pode fumar onde se quer?
Penso que a tão conhecida metonímia "cigarro pensativo" seria pobremente substituída por um café pensativo ou até, para os mais saudáveizinhos, por um néctar de manga laranja pensativo.
Alguém já pensou no bem que o esfumaçar cigarros faz à mente humana? Que enegreçam os pulmões, p'lo bem do intelecto!

9.1.08

Pequenos Castigos


Tenho saudades de ir ver um espectáculo de dança. O último que vi, há demasiado tempo, foi da Olga Roriz. Comovi-me. Espantei-me. Deslumbrei-me. Primeira fila, claro, a seguir todos os pormenores dos bailarinos, a ouvir-lhes a respiração, a ver-lhes o suor, a sentir-lhes a rush de estar num palco. Cheguei a sentir até inveja, não do que faziam, mas do que sentiam naquele momento. Tenho saudades. Quando puder, hei-de voltar a vê-los.

Às vezes apercebo-me, com surpresa, de alguns pequenos castigos que aplico a mim própria, inconscientemente. Como por exemplo, esquecer-me do que gosto realmente de fazer. Ou não fazer nada pelos meus sonhos, senão sonhá-los.

6.1.08

Desalinho

Há pessoas que sabem o que querem. Olham para o futuro e vêem um desenho nítido, a cores, com definição digital e som surround. Olham para o presente e têm o asfalto debaixo dos pés, uma estrada sóbria, com as linhas bem definidas, com contraste. Está identificada com um número e por isso perfeitamente individualizada em relação a todas as outras existentes. Ao longo do caminho existem placas acabadas de pintar com hierarquia de importância e instruções precisas: vai por aqui, não vás por ali, abandona isso, agarra aquilo, diz que sim, diz que não e por cima destas sempre uma a indicar em letras garrafais a direcção da Felicidade.
Essas pessoas estão perfeitamente incluídas (ou absorvidas pela) na sociedade: vestem-se como é suposto vestirem-se, dizem o que é suposto dizerem e pensam o que é suposto pensarem. Têm por princípio pensar em e nunca pensar sobre. Pensam em trabalho, na família, nos amigos, na namorada, em sexo, em férias, mas não se conhece nenhum caso de sucesso em que a fronteira tenha sido ultrapassada. O pensar sobre é um crime social porque está perigosamente ligado à mão no queixo, ao raciocínio, ao perceber a ligação entre os acontecimentos, questioná-los. Não se questiona nada quando se está no caminho para a Felicidade: casa e carro a prestações, marido, filhos e um PPR que é só vantagens.

Eu sou uma pessoa que não sabe o que quer. Portanto nada do que disse atrás se aplica à minha realidade. Olho para o futuro e vejo nevoeiro denso, opaco mesmo. Olho para o presente e há poeira num trilho de areia em que há pedra, silva, vala, montanha, vento e tempestade. Tenho a roupa colada a suor e pó ao corpo e os ténis sujos e rasgados.
Nunca vi uma placa. Às vezes tentei, como os antigos, decifrar augúrios divinos no vôo das aves ou nas tripas de um animal atropelado, mas nada de revelador.
As minhas incursões na sociedade têem sido feitas pela porta das traseiras, às escondidas e sem ter bem a certeza se era ali que queria estar. Mas como me vesti do avesso, não consegui permanecer muito tempo sem ser descoberta e expulsa.
Muitas das decisões que tomei na vida foram às cegas e sem saber o que me esperava do outro lado da porta. Às vezes era apenas uma porta pintada na parede, mas eu mesmo assim corria para ela. Tinha esperança até ao último minuto que ela se fizesse porta e se abrisse para mim. Só porque sim. Só pela esperança … Essa, surpreendentemente, nunca desentranhou.

eu não quero estar parado. fico velho. vou marchar até ao fim. isolado. nesta marcha solitária. dou o corpo ao avançar. neste campo aberto ao céu.
ninguém sabe para onde eu vou. ninguém manda em quem eu sou. sem cor nem deus nem fado. eu estou desalinhado.

29.12.07

candy not "candide"

A rapariga com um protector de orelhas esperava o metro com os livros debaixo do braço. Tinha aquele ar fresco e irritantemente sadio de uma adolescente. Bonita, demasiado bonita. Revelava uma preocupação exagerada com a indumentária. Notava-se na particularidade dos acessórios, na vaidade que transparecia e na procura de olhares cobiçosos. Nestas situações pergunto-me quem é a vítima e quem é o predador: se a inocente adolescente se o solitário cinquentão. O quadro é quase identicamente absurdo a uma suculenta zebra a passear-se despreocupada entre leões esfomeados. A única coisa que impede os leões esfomeados de saltarem para cima da zebra é mesmo só a filha da puta da racionalidade. De que alguns abdicam e depois são presos. Antes vestissem uns trapinhos menos chamativos à zebra, já que a racionalidade já não é o que era.

PS: post assumidamente escrito em estado de ressaca do filme Hard Candy (2005). Não gostei assim por aí além, ou seja, não gostei muito, mas faz pensar numa polémica ou duas.